porta quebrada

Esta página não tem intenção de ser reconhecida pelos "outros", mas serve de alívio para o que nela tenta escrever, rabiscando sentidos e percepções. Fadada ao caos do tempo alienado dos compromissos, aqui a mão e o cérebro se faz silêncio e palavra que perfura até o chão da rotina, ou seja, aquilo que deveria ser e não é mais. Por isso, neste espaço não existe porta, pois está quebrada, arrebentada pela liberdade do interesse.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

III Clube da Luta: proletariado milionário


Uma geração inteira que trabalha “em empregos que odeia para comprar coisas que não precisa”(clube da luta - só pra não perder o costume), decepcionada com suas próprias jornadas e acomodada a tal ponto de nada mais sentirem. São pessoas que sobrevivem ao invés de viver e que há muito já aceitaram que não alcançarão seus sonhos de infância e não verão realizadas as promessas que um dia lhe foram feitas. Como conseqüência, vivem uma vida anestesiada, onde cada novo dia é um verdadeiro sacrifício. Uma geração que encontra dificuldades em sentir-se viva.

II Clube da Luta: nas nossas procuras, nos perdemos!



“As coisas que você possui acabam possuindo você”.
(...)

“Só depois de perder tudo é que você será livre para fazer o que quiser”.

I Clube da luta: geração sem punhos




"Somos uma geração sem uma Grande Guerra. Uma geração sem uma Grande Depressão. Nossa guerra é espiritual. E nossa depressão são nossas vidas".

frase intepretada por Brad Pitt em Clube da Luta, de David Fincher.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Vácuo...




A procura do vácuo.

Há palavras, compromissos e deveres. No abismo entre estas possibilidades, que se tornou em ordem necessária para a sobrevivência, arquiteta-se o necessário mundo do não - fazer, do contemplar e do pensar. Nele nos refazemos e compreendemos a morte como certeza de nossa máxima possibilidade.

Tenho inveja dos bichos mais insignificantes que procuram um mato sem importância, vivem nele como universo paralelo, ao mesmo tempo central, pois profundo. Respiram o mistério simples e autêntico e desvendam a sabedoria.

Quero tempo para ler, criticar e esvaziar-me das palavras, dos afazeres bestiais, dormir nas horas e brincar com a terra e os galhos. Quero inventar certezas e esquecer os dogmas. Quero não precisar acreditar em autores, patrões e políticas. Quero viver sem dinheiro, mas com um pé de limoeiro e banana. Quero ser índio sem documentário, mulher sem marido, homem sem moda.

Onde reside esta possibilidade? Na indigência ou na loucura? Chutar o balde e o pau da barraca é uma coisa, agora vomitar este mundo?! Morrerei, enfartarei, ou serei excluído? A exclusão é um mal de isolamento de oportunidades, que pode causar a morte.

Quem sabe o primeiro passo para o método para esta sanidade seja fugir... não sei procuro uma saída, que não tem portas e nem tramelas, apenas um caminho a ser percorrido, sem placa e nem destino apenas a coragem de caminhar, seja com sandália ou de pés no chão.

A cada amanhecer sinto meus poros nevrálgicos hipnotizados por esta convocação.

História inexistente


Nunca na história existiu uma revolução de filósofos ou teólogos, ou poetas. Tudo que se moveu de forma catastrófica e ou construtiva, por mais que seja impossível separar estes dois elementos, ambos estão implícitos no outro. Como diz Saramago: “O Caos é a ordem a ser descoberta!”
A Igreja se meteu na história não pelas palavras de Agostinho ou Tomás de Aquino, mas foi pelas engenharias de guerra e da inquisição de homens banhados pelas técnicas. A Igreja Católica foi levantada pelo conhecimento das artes e não pela experiência eterizada de “Deus”. Os argumentos sobre deus não moveram um estado, uma nação e uma comunidade.
A técnica prevalece ao raciocínio frenético de muitas pessoas. Hoje, parado diante do espelho da cama, perguntei-me: O que sei? Como posso mover este mundo de civilidades, para um rumo que imagino? Posso manobrar pessoas, estruturas, mas eu mesmo poderei mover algo sozinho? Fui criado em livros de fenomelogistas, de tratados de céticos, e de hinos de crentes. O que isto me torna mais imprenscidível para a história de desenvolvimento?

Não falo aqui de tecnologias, falo do progresso do espírito, que se equaciona no coletivo. Descobri que das mãos de um filosofo não existe arma e nem arado, apenas uma caneta indefesa, sem o ato de tocar a realidade. De palavras temos várias, sem eco, sem cor, sem cheiro, sem motivo, sem ponta e nem nervo. Quero a técnica que move a revolução, por mais que ela seja inútil, como todas as outras. Sair das reuniões e misturar-me ao mar de complexidades de uma realidade qualquer, da rua às mansões. E assim, quem sabe criar uma técnica para além das tecnologias políticas, morais, jurídicas, engenharias... Etc. quero a certeza de uma técnica que me traga a esperança de existir e da história. Quero ser trabalhador da história e de uma vida, que geme de mudança, não delas, mas daqueles que são vivos por idéias, assim chamados racionais: ser humano.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Morte e Vida Natalina



Mais um momento chega até os nossos olhos e agendas. Momento de viajar e gastar o corpo em ônibus, carros, enfim, em estradas e rumos. O mais interessante, nesta experiência de vai e vem, é que concluímos que o nosso verdadeiro e histórico lugar de apoio, origem e memória nunca é onde estamos (isto se evidencia na maioria das pessoas).

Estamos sempre fora de nosso início, daquilo que esperamos “visitar”, ou melhor, revisitar. Visitar a família ou a nossa casa de origem é uma maneira que encontramos, pedagogicamente, de nos tatearmos e nos acariciarmos. Já peguei tantos metrôs, aviões, destinos diversos, mas nenhum tem a lógica desta “viagem” de final de ano, um fenômeno que invade internamente feito enchente.

“Natal”, já falei tanto disso em artigos, palestras, textos e poesias, sempre tentando desvencilhar hábitos coletivizados, com uma pitada de criticidade frente ao valor singular desta época, porém, hoje aqui, diante destas palavras, calo como mãe diante de um leito do filho enfermo por uma doença misteriosa. Não sei o que dizer, não sei o que imaginar, apenas embalo-me no acontecimento, com um sentimento de cansaço. Tantas coisas fizemos, lutamos, brigamos, conseguimos, frustramo-nos, acreditamos, amamos e deletamos de nossas listas de prioridade neste período de 360 dias. O cenário da vida se equaciona num calendário? Não sei, pois estamos sempre muito ocupados para nisso pensar.

Sempre tive a imagem do natal como um grande enterro. Enterro de nossas vaidades – aquilo que tentamos sobrepor ao outro. Enterro de agendas e cronogramas, para que dali eu possa presenciar o broto autêntico da vida, sem jóias e relógios, apenas nua, medida sem vergonha, descaso de mentiras e domesticações. Enterro do que não vi, não degustei, não tateei e não cheirei. O natal para mim é ressurreição do eu mais primário, mas existente, escondido, fragilizado, anêmico, marginalizado, excluído, banido, subnutrido, esquecido.

Hoje galga em mim uma vontade de dormir na estrada, a caminho de algo que não encontrei e nem encontrarei. Quero fugir das luzes e buscar a escuridão da noite de natal. Talvez lá eu possa me encontrar, perdido num ventre de rotina que hoje se resume num plano universo (um só verso), por isso, bebida e comida, um estado de sobrevivência fatal e corriqueira.

Talvez o que chamam de "noite iluminada", seja no fundo o brilho que buscamos no silêncio contemplativo da escuridão, que é sinônimo de não-aparência, não-horizonte, apenas percepção de respeito e espreiteza. Neste sentimento iluminamos a nós mesmos, nossos eixos e centros, tão debirutados pelas gigantescas demandas e estratégias sociais, profissionais, políticas, culturais e comportamentais em que nos deixamos reger diariamente.

A ética de nosso coração está no estômago de nossa faina histórica.

Neste ano vi tanta gente falar, planejar e contar carros, apartamentos, e-mails, maridos. Outros vi enlouquecer, dormir, enfartar, casar, fugir e romper com patrões e família. Natal é motivo de memória, é o parto do novo!

Esta memória faz-me voltar para a minha imagem. Confesso que envelheci, tenho fios brancos em minha barba, barba esta de tantos comentários e deslogios (falta de cuidado, assim dizem!), meu corpo a mangedoura das minhas angústias, medos, esperanças e projetos. Hoje me identifico com Jesus no horto e não aquela imagem do presépio: vivo, como folha verde na primavera. Talvez esta confusão de imagens e cenários, entrando num complexo quase que ilegível, seja o resultado da tão falada experiência religiosa -  confundir imagens, rostos, anos e etapas. Hoje não sei se sou Filho envelhecido ou tornei-me Pai, terceira pessoa da trindade. Mas com inspiração nas cicatrrizes que carrego, descrevo balbuciando ao vento: quero ser Espírito para voar deste chão, quero vitalidade para percorrer desertos e jejuns, ou então, quero ser menino aquecido pelo bafo simples e real de um burro. Sem medo de bactérias, de compromissos, de nojeiras, de absurdos, de idiotice, maluquice. Quero ser/estar entre o sono do sonho e o sonho do sono, aqueles de minha infância que eram levemente encerrados ao som profético e familiar de um passarinho a mergulhar no orvalho da manhã. Na cozinha nasce o cheiro do café e o som dos passos de minha vó, preparando o caixote de lenhas, frescas para o sacrifico do almoço. Doce abandono, curta viagem, enorme distância, parida memória.


domingo, 13 de dezembro de 2009

Direito de ser!


Na cidade de São Paulo ou no interior de Pernambuco descobri a força impulsiva do direito. Andando pelas ruas vejo o direito da limpeza antes do consumir, do silêncio antes do automóvel, do vázio, antes do lotado, da solidão antes dos alto falantes. No dia em que o ser humano se pensar como centro de suas ações tudo o resto florescerá na dignidade do existir. A opressão das coisas inventadas e entulhadas pelo estomago do poder vai martirizando, moendo, amassando, pisando aquilo que somos. Não falo de um antropocentrismo moderno, mas de arrumar a casa da sociedade. Sabendo de nossa centralidade, centralizamos as outras coisas, pois hoje a grande bagunça universal é causada pela descentralidade harmônica do ser-humano. Cansei de ser atravessado pelo acúmulo de ordens do dinheiro, quero morrer pobre, mas antes dormir tranquilo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

VONTADE.


Ontem, numa conversa solta e típica de um tira a gosto do almoço dominical e familiar, o meu tio, ao longo de seus anos de estrada da vida, me fez a seguinte questão: “O que falta para o povo sair da miséria?” Abruptamente me lancei a responder que, “Isto é um fenômeno que extrapolava a falta de oportunidade de um emprego ou alguma ocupação rentável. É um problema de políticas públicas etc”. Nesta natural e óbvia resposta fui logo flagrado com outra dúvida estomacal lá do âmago, de meu herdado parente: “Não adianta dar emprego a esta gente, pois eles vão querer outras e outras coisas mais. Tenho experiências concretas disso. Nunca se sacia a necessidade de um pobre”. ‘Pobre!’ Conceito tão usado na boca de tantas gentes e dentistas e eu, neste mar de pensamentos, me sentindo pobre de palavras e de idéias conclusivas e sintéticas. A questão social é uma situação de “idéias”, ou seja, um governo se baseia sempre num imaginário de poder, intervenções ou outras coisas relacionadas no campo do mando e interesse (seja qual for). Mas esta sessão, para não falar em fuzilamento, de questões, tão simplórias para os tratados sociais e políticos acadêmicos e oficiais, me fez enminhocar por muito tempo algumas reflexões que cabe estreitamente aqui. O que falta para uma pessoa e/ou realidade empobrecida?! Dinheiro? Oportunidade? Formação? Assistência?

Incrivelmente algo apareceu no meu entendimento, como andorinha no fim de uma tarde ensolarda, depois tormenta, chamada de VONTADE. Esta palavra não significa aquilo que imaginamos enquanto, vontade voluntária, ou melhor, voluntarista. Mas sim, a Vontade é motor de anseios, desejos, construtora de cenários imaginários que lança-nos a projetos, atos e sentimentos. A vontade é o que move o estagnado, dá caminho para os pés, coração parao orgão, idéias para a cabeça e olhares para os olhos. A grande falência e morte da pobreza não está no dinheiro ou num afazer mecânico intitulado de 'trabalho', mas numa característica intrigante que chamamos de Vontade. Somos parte de um conjunto de realidades invisíveis que são mais concretas e maiores que a muralha da China. Nos fazemos em base a nossa vontade: sonhamos, esperamos, anseamos, sofremos, inquietamo-nos, desesperamos, projetamos, fazemos, desfazemos, construimos, desconstruimos...somos uma vontade que nos lança, move e nos faz! Como dar Vontade a um ser-humano? É possível doar sonhos, desejos, projetos para uma pessoa? Como dar vida aos mortos? Eis a questão social, um probelma plenalmente existencial, antes de antropológico e sociológico, ele é um aborto fenomenológico. O probelma ultrapssa sempre a sua aparência, por isso, é um complexo. Minha mão pesa nestas teclas, cansei de digitar enjoei-me com esta reflexão. Será isto um sintoma de minha incerteza e triteza, frente aquilo que ninguém quer pensar e se deixar questionar? A pobreza e desiguladade é produto de um outro corpo, sem anus e estômago, mas existente.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Envelhecer





(Compositor(es): Arnaldo Antunes; Ortinho; Marcelo Jeneci)

a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
a barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer

não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer
eu quero é viver pra ver qual é e dizer venha pra o que vai acontecer


eu quero que o tapete voe
no meio da sala de estar
eu quero que a panela de pressão pressione
e que a pia comece a pingar


eu quero que a sirene soe
e me faça levantar do sofá
eu quero por Rita Pavone
no ringtone do meu celular


eu quero estar no meio do ciclone
pra poder aproveitar
e quando eu esquecer meu próprio nome
que me chamem de velho gagá

pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé
com os ralos fios de cabelo sobre a testa que não pára de crescer
não sei porque essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender
que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr
não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer
eu quero é viver pra ver qual é e dizer venha pra o que vai acontecer


eu quero que o tapete voe...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

FAMÍLIA...


Família é aquilo que se atravessa na vida para se fazer história de intrigas, fotos, comidas, cadela morta, estante de coisas, cozinha entulhada, cama de aromas e odores, aniversários, mochilas, malas, bolo, pão seco, misturas e musses, conversas, doces, amargos  e outras coisas que se fazem sempre num outro, que se estica na memória dos olhos, do amanhacer ao anoitecer, enfim, um "bom dia" e uma "boa noite"!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Antes de Cristo


O ufanismo do passado. O hoje é sempre menor do que foi e do que será, pois ele é resultado de uma realidade e não de uma mera e divagadora imaginação. Nem nossos avós consegueriam viver em nossas ditaduras, os nossos filhos são fortes em acreditar que hoje eles são fracos, débeis e imaturos. Este é o julgo projetável dos adultos (=gente que se imagina) frente aquilo que denominamos de infância (= sem voz).

Vigiai!



Sempre os trocadilhos para nos meter em confusão com nossas calmas e bronzeadas certezas sempre de férias.

Claríssimo


Se acredito em vida extraterrestre? Já está tão dificíl de acreditar na vida...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

HETERONOMIA


Você me surpreende em mim
aleijado com clarim
perfuma aridez e umidade
sem fadiga idade
amacia a dureza
dignidade de realeza
colore o desenho
cenário risonho
Artista sem tinta e som
do silêncio o tom
pastora do outro
da florestra és troco
Na voz do eu
minha anima te leu
declamou o nós
multidão e sós
pessoas em conjugação
palavra e ação
Amor é amizade de tarados
Soleira de confortos
eira e beira
Mulher e mineira
pele e coiceira
tubo de respiração
orgão do coração
roda gigante
algodão doce da mente
Lua plantada ao meio-dia
centro da periferia
Candenlário de inverno
àspero e terno
Água de verão
mudez e sermão
Manhã de minhas noites
Idiotices em odes

No altar de uma cama
filhos uma trama
Dedos de prosa
o prazer goza
Confusão de medos
labirinto de nervos
Brigas e contas
céu sem cotas
na estante filmes polidos
Romances e documentários
No armário roupas cheirosas
estendemos tardes gulosas
no varal toalha molhada
poesia é saudade penteada
Somos ersonagens sem script
tratado e relise
na lápide do passado acenos 
escada pra acerto temos

Na raiz do ontem o conserto
longe e perto
na construção suor
saliva e odor
na imaginação tudo
pé esquerdo sortudo
na mesa invenção
diálogo de redenção
Um dia, uma palavra
juventude nossa catedra
cada gota de telefone
projeto e codinome
miúdos toques
desejo em lotes 
Amor não é paixão
Emoção sim de uma razão
Se faz no calar de um falar
soprar e abraçar
machucado com remédios
olhos e cílios
reconhecer do outro
nem prata dem ouro

O que se detesta e se chama
há sempre um tema
cozinha e sofá
a esperañça é sempre um lá
A distância é caminho
não é separação, mas destino
O remédio é o confiar
destino é imaginar
amanhã é resumo do agora  
o depois afora
Juiza e ladrona
És Poltrona

Pobre segurança


Uma dolce poesia em imagem para a inteligente e sensível polícia do Rio de Janeiro, em especial, ao BOPE! (e que sirva como chapéu para todo tipo de segurança de Estado!!!)

Sem controle



Nossas crianças já nascem gente de outros
Quem daria alma àquilo que não nasceu?
Ser pessimista ou sonhador das frustrações?
Quem dará um antídoto a esta situação?
Não quero controle, quero invasão
Não serei marionete, mas urubu
No gelo serei fogo
Na sombra, sol
Na lágrima, riso
Tudo serei
Menos outro

Ah! se os desenhos fossem reais II


Nas páginas coloridas e nos enredos perdidos da elocubração de um gênio da imaginação. Ele revela no poder da expressão de fazer acreditar que, tudo é cômico, gracioso, como criança em noite de festa, mas na realidade, portanto, todo ser pintado, é um feio sem graça. A imaginação aliena imagem sem tempo e sentimento vulneráveis e instáveis. Desmistificar, é colocar as coisas no seu devido lugar, é dar valor a decadência, simplicidade, banalidade e esquisitice recheio da existência. A vida é trivial, mas magnífica pela generosidade do existir. Isto basta! Nem mais e nem menos, apenas o essencial.

Ah! se os desenhos fossem reais I


Nem espinafre refaz espírito e células! Será uma profanação, ou descrição da máxima decência da existência??? Rááá.

Relógio da vida


Este simples ciclo de um fazer a outro, nos limita e delimita numa brincadeira inconsciente, por isso, ditadora e assassina. Neste movimento natural cada segundo é o resultado de menos uma célula de possibilidade. Pare o relógio e saia do ciclo donde estás. A vida acontece na florestra do absurdo, montanha do ócio e na vagabundagem do ser. Relógio são para torres e catedrais. Nós precisamos é de pulso e de magia estranha, subversiva e transgressora, acordada como um aninal sem agenda.

Morreram, e daí?!


Às vezes é necessário fazer uma lógica contrária, ou melhor, inversa ao bom senso. Eis a notícia: "2 policiais são mortos no Rio de Janeiro por traficantes!" Nossa, que absurdo isto. Absurdo? Qual é o ponto de vista de onde parte esta exclamação? Qual ângulo desta história que miramos, focamos e nos escandalizamos? Será sobre o fato da morte nela mesma, ou seja, por 'alguém' ter morrido? Ou será a aparência do instrumento e a causa desta morte? Isto nos causa que tipo de sentimento: medo, insegurança ou pena? Ou um estado solene, bem elaborado e crítico de repugnância por este fenômeno? Ou será apenas uma consideração e comentário social do fato? Rio e o Rio ri de mim. Eu do meu sofá, num dia "normal" qualquer, fiquei intrigado, solitariamente, com um detalhe, que pra mim é essencial no desfeche e conclusão do ocorrido, deste quadro que se repete milhares e múltiplas vezes em nossa obra sociedade. A questão é simples: "Violência gera violência!", será isto um modismo simplista de idealistas?! Ou uma lógica esquecida na interpretação dos fatos vomitados pela realidade cansada, estrupada e cheia, transbordando de convulsões e contradições de fenômenos conflitantes? Pois assim como o estômago lança para fora aquilo que criou confusão no seu campo, assim é a violência para o cenário social, uma reação natural e necessária. O que se evita se explode. ISto tanto no limiar da psicologia subjetiva como na social. Não quero criar polêmica, mas justiça com o pensamento, por isso, afirmo publicamente aqui: Eu legitimo a morte destes policiais. Escândalo? Vulgarização? Partidarismo marginalizado? Descriminalização? Ridicularização? Não. Pois nós sempre legitimamos a existência de armas, como estratégia de força e enfrentamento de situações que a nossa epidérmica inteligência não sabe ler, lidar e concluir... Legitimamos aquilo que condenamos tautologicamente sem razão. A polícia é a força do Estado, e os traficantes/ "bandidos" (como são chamados) são meramente a força da milícia, uma outra forma de governar. Tudo que se agrupa tem um poder, não pela quantidade, mas pela idéia movedora que é criada como cola e comida para um coletivo. Agrupar-se é militar-se, é impor-se a inconsciência do circo da história. Porém, nestes dois exemplos, do Estado e dos Crimonosos, ambos estão baseados na liberdade de associação, os problemas gerados não estão neles em si, mas são só instrumentos, meios anexos  e ofertados pela nossa justificativa natural para o armamento. Armar-se é preciso, o contrário seria uma falácia. Eis uma afirmação impossibilitada de não-existir. Quando firmamos esta prerrogativa, anulamos outras possibilidades, pois resumimos tudo num objeto-gesto. A arma é sinônimo de morte, não existe outro princípio. Ué, mas não falamos de segurança, proteção do bem para a sociedade? Eis a contradição, é como se estivéssemos falando de cura e ao mesmo tempo implantando tumores no corpo enfermo. Não sabemos lidar com a possibilidade do diálogo e de estratégias capazes de construir mudanças processuais, históricas e habituais, em que o tempo é parceiro e companheiro desta iniciativa. Hoje temos uma grande massa despolitizada e irracional, movida pela lógica do caminho mais curto, porém, nestes caminhos sugestionados pela massa, e manuseada por uma minoria que lucra, os pés são amputados tanto de quem compra, de quem vende, de quem usa e de que se avizinha desta situação. Um verdadeiro símbolo disso são os terrenos minados até hoje da Angola e outros países. Uma verdadeira anomalia a terra enxertada pela ignorância artificial do ser humano. Aquela que é mãe de todos, serve de tapete para mortes e amputações. Do pó nascestes e de uma mina te matarei! O ser humano é o único que sufioca e invade a identidade dos outros. Conquistar é o seu sentido maior, que está acima da vida e da morte, por que é meio em si mesmo, por isso, patológico e alienado. Porém existirá um ser humano capaz de transcender a fatalidade da violência bélica que assola os quatro cantos e o centro do planeta terra? A mesma arma que constrói a histór,ia de sangue em muitas regiões da África, é a que está nas nossas centrais públicas e legitimadas de "segurança" em Resende ou em São José dos Campos. Enquanto existir este processo de naturalização e criminalização não dos meios e instrumentos, mas sim, das pessoas, eu assisto e assistirei a este jogo de barbárie, não chorando ou vigiando por ninguém, mas como expectador de um jogo, fico na ânsia de que alguém desista de jogar. Esta é minha inversa razão aos fatos que consomem os comentários pulpitados na sociedade, sempre televisiva e espetacular. Nossas opiniões são virtuais, a realidade é outra coisa, às vezes mais complexas, porque tem um toque de simplicidade e nada de sensacionalismo. O sensasionalismo é fabricado pela magia das palvras e imagens nelas mesmas, é uma criação imaginativa, não investigativa e reflexiva. Na realidade, para a morte, não existe nome, codinome, cargo ou função, polícia e rebelde, fazem parte de um mesmo homicídio e tragédia. Ambos vítimas de sua prórpia capacidade de acreditar num elemento cultural e alienador. Quem mata e quem morre? A morte iguala a todos na tragédia com base intrínseca a um terceiro elemento causador: a ARMA. Os policiais morreram, e daí? A mesma mão que mata, mata-se.

sábado, 17 de outubro de 2009

CASA



A casa é onde nós estamos. Rua,  Abrigo,  Mansão,  Casebre? Não é um lugar, mas um modo de estar. É um estado de relação invisível ou visível, depende de quem vê!

Morre-SE



"Guardemo-nos de dizer que a morte se opõe à vida. O que está vivo é apenas uma variedade daquilo que está morto, e uma variedade bastante rara". (Nietzche. Gaia Ciência. livro III. 109)
Duas coisas estranhas, feitas sempre em palavras e sermões na boca dos reféns de si mesmos: Amor e Morte. Duas verdades, mentidas pelo acreditar. Certa vez interroguei-me e deixei-me em questão...qual será a matemática da morte? Como pintá-la longe das certezas e códigos já descobertos e repetidos inúmeras vezes nas escolas, praças, igrejas, livros e bilhetes de suicídas? Nesta interrogação que foi emergida num cemitério sem cruz e nem velas, mergulhado no interior de um estado do sul, apenas com pedras e gramas, como um cenário inca. Vi a minha frente, celebrado por um tapete verde de grama bem cortada, uma azaléia, toda florida, cheia de cores e contornos, e ao seu pé um solene, e ao mesmo tempo anônimo, velório de pétalas defuntas. Imagem hermenêutica, uma mistura de vida e morte, ambas pintadas dentro da mesma moldura. Diversos ângulos e detalhes de um mar de olhares, registraram uma história a ser contada e, com toda modéstia, aqui publicada.  Imagem evidente: Galhos revestidos de folhas, no auge de seu verde, e flores brincando de vida num balé revestido de vento. Porém, uma segunda característica captada desta planta, como fenômeno profético, relembrando a sarsa ardente dos antigos escritos, porém, sem exagero de uma imaginação ufanista, revelava expelicitamente folhas e flores murchas, enrrugando-se na fraqueza de uma virilidade minguante. No entanto, escrever mais um detalhe se faz necessário, outras flores e folhas caíam espontaneamente, sem voz e emoção, murchas, acabadas e escuras, na terra, ventre arquétipo da solidariedade infindável da existência... Com este olhar anatômico, como criança em noite de lua-cheia, infiltrei-me na atenção e recordei-me que este processo, enxergado neste instante de pensamento e percepção, é contínuo, natural pela espontânea e livre lógica do existir. A eloquência desta planta, tantas vezes irrigada pela chuva matutina e noturna, descodificava ali uma verdade, muitas folhas e flores já brotaram, desabrocharam, murcharam e despencaram, caídas confiantemente, desapareceram no processo secreto da terra: transformaram-se na somatória e biodiversidade - infinitas relações - de um conteúdo chamado de "adubo". Tudo o que some, desaparece, de sua forma originária, torna-se em vida múltipla de outras coisas. A vida é isto um elo de relações mutáveis, um jogo de descobertas e possibilidades. A Morte é a falta de ajustar o ocular de nossas certezas e saberes. Assim, caiu-me uma reflexão sobre a vida e a morte: um ciclo de aparências e momentos, porém, ambas fazem parte do mesmo terreno, ciclo, impulso, vitalidade, tempo e aparência, mesmo que em cheiros, contornos e cores diferentes. E o amor? Isto é uma outra história.

Inveja do Artista




O artista é por excelência o trabalhador do belo. E toda beleza consiste de uma pretensão inútil, mas necesária. Antagônica como o ar e pulmão. Sem troca e preço, mas imprescindível na relação. A pessoa que se apresenta no cenário da arte gasta tempo e dinheiro na forma do que vê e sente. Debruça-se nas horas desprendido pelo mergulhar em si e nas coisas que o rodeia, e a engendrada mágica de refazer aquilo que lhe escapa, como amorte some das mãos dos que velam. Contrário aos operários do fazer, ele se afunda, entra e se molha nos detalhes perdidos e achados na consumação da contemplação. Faz-se melhor e profundo a cada dia. A cina do escravo do dinheiro e da técnica metrifica e vomita coisas pra fora. Constrói prédios e cadernos, mas não sabe a leveza do contorno da existência e do que ela arrecada em seu sumiço metodológico. Dá-me um palco e um casebre na montanha, refazendo-me no orvalho e no jantar improvisado. Quem se dedica a arte, se dedica num castelo sem pedras e portas, mas moldurado no templo de um ermo que é o próprio pé e peito de quem concentra a realidade por segundos, mas infinitos sentidos. Sentimento da alma e caminho da razão, talvez seja um enunciado da arte. No barulho de um computador o menino engole-se numa tela branca e colorida por imagens postadas por outros. Quem mostrará a delícia e saudade de um lugar amontoado na selva? Quero floresta e luz de arte, para sobreviver com mais dignidade e razão. Quero ser um humano mais atento, mais malandro, malicioso e filósofo daquilo que se perdeu e se consumiu na gula da rotina.Meus dedos não tocam música, por que cansei delas, minha rima quebrou no absurdo do tempo e do que hoje sou. A te´cnica não acompnha o crescimento da existência. Esta é a dor de quem sabe e a fome de quem já comeu e sente desejo de algo que não se encontra mais. Arte saudade do que sou, seria e serei.

domingo, 27 de setembro de 2009

Alteridade II


A partir de uma imagem montada e confeccionada pela crença se metrifica uma condição perfeita para se projetar aquilo que se escapa da própria responsabilidade. Ninguém mais "integral", Justo, PERFEITO que "Deus", pois a imagem de "Deus" não tem medida de experiência e realidade, só pode ser decadente aquele, ou melhor, aquilo que tem corpo. Faz parte da existência diversos ângulos e o olhar parcial, portanto, contraditório. Quanto desejo e anseio pelo belo e pelo que é perfeito. A religião transforma o fraco em forte, o ignorante em sábio, o pobre em rico. Tudo o que é utópico é ignorado pela grandeza do limite da rotina e realidade. Como se inventa em nós esta mania de procurar por algo que não seja aquilo que somos e deveríamos ser? Somos procura, não somos poça de chuva, mas somos corrego de vida. Faz parte o movimento. O problema está que erramos na imaginação, ao necessitar uma imagem estática, que não fala e nem se expressa, a não ser o eco de nós mesmo daquilo que esperamos e queremos que seja falado. Esquecemos que a trasncendência está naquilo que nos alienamos, nas profundezas das diversos meios de comunicação, e nos castelos das nossas fanstamagóricas realções patológicas. Nos fazemos na possibilidade do rídiculo, do ultrapassado, do profano, do limite, do corpóreo. O resto é projeção e fuga da real e da mais digna condição.

sábado, 26 de setembro de 2009

Alteridade I


Hoje vivemos dentro de um mecanismo uterino-verbal, ou seja, um elo de razões faladas dentro de razões internas imaginadas. Nada pra fora, tudo pelo outro, que engendra a nossa fala e imaginação. Vivemos como garganta que tenta se engolir. No trabalho se fala do outro, da vizinha e da concorrente. Na Igreja o padre cochicha com o coroinha e a sacristã, sobre a massa de fiéis e principalmente dos infiéis. É o vício mais em voga que parece ser da natureza, aprori. Fala-se do outro, fala-se das putas, das brigas dos casais, da menina retardada, do garoto garanhão, da mulher chata, do homem mentiroso. Adora-se categorias, como fantasia de escola de samba, quanto mais colorida e exótica, mais atiça e envolve a existência da passarela. Cola-se em todos outdoors de comentários, que se transforma em realidade maior do que a carne e pele do individuo falado. Num mundo de anatomia e psicologias, não se descobri a fórmula pequena, mas monstruosa do falar esquizofrênico do cotidiano. O que equaciona na vontade do ser humano de viver para fatos e coisas tão estreitas e óbvias de suas hipóteses? No cinema se procura um inimigo. Na rotina a diarista constrói um mostro de sua patroa e vice-versa. Assim a epidemia da fofoca e dos comentários sobrenaturais, literalmente, vai se fazendo. Falar de coisas é o modo como as pessoas tentam se perder para não se acharem nas coisas mais imprescindíveis. Tudo o que é essencial dói pra razão. Ninguém quer pensar nas dores de estomago de crianças da áfrica, nem dó na garganta da menina estrupada, muito menos do rico empobrecido por sentido: um suicida. Pensar na vida pra além da verborragia imaginária dos submundos e universos de nossa rotina funcional é fazer-se na alteridade saudável. Somos mais que a soma de mediocridades de imagens soltas e roubadas das coisas e de fatos alucinógenos para a percepção. Porque falar do namorado da secretária, enquanto aprova-se uma lei que mata milhões hoje e amanhã. Política, fome, miséria, corrupção, dinheiro em excesso, saúde em falta, elefante de circo velho, palhaço sem graça, maratona de pivete, caos no funk, cirurgia no cérebro. Deveríamos nos fazer a cada dia, minuto e segundo, como um ato de meditação budista, ou de encarnação espírita, na alteridade e não na fala rasa, grudenta, habituosa e libidinosa da mediocridade que rasteja no impulso mais primitiva, que visualiza o outro e as coisas, mas sem o odor e substância real e caótica própria de uma vida e realidade. Somos alteridade, sem isto vagamos no mundo das idéias de um conto parido pela língua. Nada mais e nem menos. A saliva é o sêmen da ignorância.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

bueno!
























Não diga tudo o que sabes

Não faças tudo o que podes
Não acredite em tudo que ouves
Não gaste tudo o que tens

Porque:

Quem diz tudo o que sabe,
Quem faz tudo o que pode,
Quem acredita em tudo o que ouve,
Quem gasta tudo o que tem;

Muitas vezes diz o que não convém,
Faz o que não deve,
Julga o que não vê,
Gasta o que não pode.

(Proverbio arábe)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

OPÇÃO!



Duas maneiras de encarar/ optar a vida:

 - Uma no olho do furacão de um coletivo oprimido, centro e periféria, relógios, concreto, barulho cilíndrico, fumaça, feiúra e mal cheiro, marginais e estranhos, urbano espontâneo, caos;
- A outra maneira revelada na memória de um ermitão, como um cenário de Búzios, hora do sol, florestas úmidas, silêncio dos pássaros, filhos e vizinhos, fartura e beleza natural, prazer e harmonia.

O que optar, ou melhor, para que viver e para que morrer?
A escolha de uma vida está no sentido de uma morte!
Hoje dói viver.
Estou em São Paulo.
Qual a razão desta opção? 
Onde se equaciona a alienação?

domingo, 13 de setembro de 2009

Uma questão de fé!

"Enquanto os homens tiverem de morrer, uma parte deles não poderá suportar esta idéia e criará subterfúgios. Não se assassina um subterfúgio, não se pode matá-lo. Ele é quem nos mata: Deus mata tudo o que resiste a ele. Em primeiro lugar a Razão, a Inteligência, o Espírito Crítico. O resto vem por reação em cadeia..."
Michel Onfray.

Sustentabilidade

"A Idade da Pedra não acabou por falta de pedra."
(Zylbersztajn)

contrapondo

Para contrapor com o que foi escrito antes...
De Carlos Drumond de Andrade:

Amar

Que pode uma criatura senão,
senão entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Romance





Será que alguém disse o que seria o amor?

E se isto valeu, e foi feito como alimento?

Palavra é palavra

Nada entre o dito e o silêncio,

Ambos condenados ao inútil



Tristão e Isolda,

Sofrearam na imaginação
Minha vó se fez na real

Entre a panela e o travesseiro

Idiotice é escrever

Sem ter na mão a faca do sustento



A história oferece a certeza

Entre castelos e favelas

Castigos e promoções

Piedade e crueldade

Saudade e divórcio



Aqui nesta cidade

Vejo carro e menina indo no salão

Unhas e cabelos

Livros e romances

Na prateleira da mente o tédio

Serei capaz ainda de construir uma história

Que desse lágrima ou temor?



O absurdo da vida se esconde

Na fatia da maça vespertina

E no mercado onde vendem o leite

No leito do parto

Uma mãe sonha com colégios e praças

Sobra-lhe a dor no peito



As cascas que são deveres

Trafegam no homem como navalha

E pedaços da morte

Ruas perdidas com entes moribundos

Em prédios antigos, vizinhas sem nome

Irmãs sem amores

Dedos sem destino



Quem me disse que amar é ter vida

Mais um som sem verdade

O que fazer com a trama da minha janela

Tenho medo de enlouquecer e rasgar meu contrato

Não somos nada, além do reflexo deste urbanismo

Decadência do que foi minha infância

E o que será da minha identidade

INEXSITÊNCIA

Somos anônimos de nosso próprio caos

Vagamos entre a consciência e o ter

Porém, nos fazemos no vácuo do abismo do nada

Sem pó, sem verdade

Apenas com os olhos no limite e vaidade



O livro está molhado no banheiro

Misturado com urina e roupa suja

Esqueci de algo?

Ou aprendi com o não-dito?

Melancolia ou razão?

Talvez a primeira seja um mal entendido da segunda



Busco hoje o equilíbrio do desequilíbrio

A morte da vida

O coração das minhas mãos

Dexei de lado como doença

Aquilo que me trouxeram e me fizeram crer

Moro no quarto de minha ignorância,

Mas sem portas, janelas e paredes

Aberto como vela em alto mar

Ou satélite no vácuo universo

Procuro sair de mim mesmo

Sair de minha história

E mergulhar naquilo que nos escapa



Quanta abobrinha

Vejo daqui botecos e igrejas,

Outros entre o sono e comer

E eu mais um vez doido por mim mesmo



As vezes não sabemos onde roubar

Ou o que ensinar

Pois isto é invenção de meus passados

a nossa prisão e condenação

é a consciência coletiva



Sociedade é a soma de contradições e crenças

É um universo de imaginações e devaneios

Até suas conquistas são fantasmagóricas

Começou a chover

E vejo em prece

O mundo sendo lavado

PINACOTECA

A arte terá razão de ser por ela mesma?

Como um espermatozóide sem ejaculação?
A arte o que?
Seria o contorno evidente de uma realidade despercebida?
Ou é som e cor pela aparência?
Terá um recheio, um sentido?

O que diria Matisse?
Acabei de sair de uma exposição deste autor
Pinacoteca conserva o que há de mais valioso
Quanta coisa e gente lá
Salas forradas de obras-primas
Corpos contorcidos e quebrados
Para agredir e perceber que a vida é imperfeita

Quanto colorido e formas
Nada de tão dito, mas tudo explícito
Ares da tantos lugares França, Holanda...
Paisagens e formas diversas,
mulheres desnudas, pagas como manequins
O gosto do contorno e luz
Genialidade no toque
Toque do quê?

Acabou.
Fim de expediente
Seguranças avisam o término da aventura
Saí.
Lado de fora,
Vaguei entre o bosque e as ruas
Vi bêbados.
Miseráveis com instrumentos mal tocados

Atravessei a avenida, atrás de mim o imponente templo da arte
Castelo de mistérios e histórias
A minha frente uma porta grande com muita gente
LUZ
Uma estação diferente, mas igual a qualquer pedaço de São Paulo
Crianças com roupas coloridas e cheias de letras,
Diferentes mas todas iguais
Pais suados pelos passeios
Mulheres estressadas pelo destino num trem lento e velho
Atrás e acima turista com máquinas vislumbram o teto da construção
Marco histórico
Mais um flash de arte que está na construção
O resto dá nojo e é repugnante
Deve ser evitado, excluído, fugido

A beira dos corredores da estação a obra por excelÊncia
De uma cidade construída e arquitetada inconscientemente
mulheres altas baixas e gordas
A sujeira está na pele e não no chão
Unhas pintadas
Pernas feitas de algo que não saberia pintar
Velhas e barrigudas
Prostituas, “mulheres da vida”,
Ou mulheres de nós mesmos,
homens e mulheres,
adultos e crianças
Pedofilia?
Não somos pais daquilo que engravidamos pela insensibilidade
Estrupamos a cada nascimento de uma miséria
Pensei, caminhei e olhei nada mais
Sobrou-me o caos do desepero
O não-fazer
Na minha frente se levantava um ônibus de fronte a Pinacoteca
Quanta gente cheirosa, quantos artistas nasceram nesta merda do não-cheirar?
Não sabemos o odor da realidade
Muito menos a agonia da vida
Quando andava, um monte de mulheres afobadas,
esperavam catar alguma oportunidade
Moeda de mais valia, penetração e grana
Agride? Porquê?
Nada mais do que um gesto solto sem moral
Assim como ir até a igreja: uma crença
Pular no escuro, diria a voz rouca do pastor
Atrás uma mulher toda feia e pobre chorava
Desespero? Medo?
Não sei

Caminhei
Fui
E pensei
O que terá Matisse visto?
Quem pagará o imposto destas obras?
Envergonhei-me por gastar meus sapatos no solo daquele lugar
Longe da realidade, distante do intelecto
Mediocridade da consciência
Não há arte sem corpos e denúncia
O que sou da Luz?
Um turista e um ilusionista de minhas idéias e percepções
Quero ser artista?
Enquanto escrevo isto a tv revela mais um ator
Não considero samba sem comunidade
Nem pintor sem prostituta
Assim como cidadão sem o outro perdido em tantos cantos
Nem percorridos e nem sabidos.

gentificar


"Gosto de ser gente, porque inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Esta é a diferença entre o ser condicionado e o ser determinado.[...] Gosto de ser gente porque, como tal, percebo afinal que a construção de minha presença no mundo, que não se faz no isolamento, isenta da influência das forças sociais, que não se compreende fora da tensão entre o que herdo geneticamente e o que herdo social, cultural e historicamente, tem muito a ver comigo mesmo".

(Paulo Freire)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Religião, humanismo e hedonismo...


"(...) o anúncio do deus morto proferido por nietzsche, o do falecimento do homem feito por foulcault, liberam o terreno para um novo nascimento no qual o humanismo e os direitos do homem desaparecem. (...) deus celebrado, o homem divinizado não produziram, realmente, senão a alienação e a servidão, o empobrecimento, o enfraquecimento dos indivíduos, seus sacrifícios aos leviatãs multiplicados.
após deus e o homem, o camelo e o leão nietzschianos, é preciso celebrar a criança e as virtudes da inocência coextensiva ao sobre-humano desejado por zaratustra. além do rosto de areia, pode-se traçar com um dedo febril o contorno de uma nova figura: o indivíduo soberano. a morte do homem e a superação do humanismo ganham seu sentido nessa perspectiva do reino da nova figura. primeiramente, deus dispõe de plenos poderes e o homem não conta em nada, uma coisa sendo a causa da outra - a religião triunfa; em seguida, o homem reina sozinho enquanto que o indivíduo soberano não tem existência nenhuma - o humanismo lança todos aos sufrágios; imaginemos então uma nova época, possibilitada pelas fraturas abertas em maio de 68, tendo, ao centro, o indivíduo soberano e o reino daquilo que chamarei o hedonismo, sem esquecer a lição de nietzsche para quem todo prazer busca a eternidade.
(...) feito para ser ultrapassado, dançando no vazio sobre uma corda estendida entre a animalidade e o sobre-humano, o homem se exercita volteando no espaço, por cima de uma praia cuja areia poderia muito bem acolher sua queda e abrir-se em forma de tumba. O pai de zaratustra afirma que a distância é tão grande entre o verme ou o macaco e o homem quanto entre o homem e o super-homem. O trabalho dos nietzscianos franceses após 68 consiste em avaliar, medir, considerar a distância entre o ponto do meio e aquele da extremidade, longe das origens, antes de empreender um outro percurso, aquele do segundo segmento. sobre esta linha, deus e religião se encontram no início, o homem e o humanismo no centro e o indivíduo soberano e o hedonismo no final".


(A política do rebelde - tratado de resistência e insubmissão, Michel Onfray, 1997)

domingo, 30 de agosto de 2009

Razão filosófica


VERDAD


"Hay hombres que luchan un dia y son buenos/ Hay otros que luchan um año y son mejores/ Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos/ Pero hay los que luchan toda la vida/ Esos son los imprescindibles"

(Bertolt Brecht)




A/cerca da sociedade atual

Onde se encontra, se é que existe, o limite entre o que é coletivo e particular nos centros e periferias urbanas? Hoje o que chamamos de "metrópolis" e até mesmo daquelas cidade de pequeno e médio porte, professam a crença no indivíduo, como um ser ilhado numa família e necessariamente relacionado ao seu habitat laboral. E a declamada e unânime profissão da crença da inexistência da comunidade, como território e espaço de possibilidade de conquistas e de um desenvolvimento baseado em interesses e partilhas. O vizinho é um ente indiferente, inexistente pelo corpo de nossa atenção e necessidade. Uma rua não representa mais um espaço de troca de perspectivas e de interesses comuns, mas apenas um risco de concreto que pavimenta o "meu" acesso e o "seu", enfim, um acaso geográfico. Neste novo cenário de relações, o número presente na faixada das casas e a caixa postal de um coletivo cahamado "família", têm a sua essência em si. Não importa se estou no Rio de Janeiro ou em Curitiba, a uniformidade de relação é a mesma. Os sabores perdem cada vez mais as suas peculiaridades, singularidadese logo leque de criativas sensações e lógicas elaboradas pela experimentação. Os indivíduos se coletivizaram, massificaram escolhas e desejos, se trasnformaram em mutantes do poder. Queremos "coca -cola ou guaraná". Não ousamos criar saberes/ sabores e bebidas. Quem já tomou banana com manteiga e melancia? É ruim, indigestivo? Mas todos os produtos tem um veneno codificado em seu corpo. Como dizia Fernando Pessoa, o primeiro construtor de frases de marketing: "Tudo o que no início se estranha, com o tempo se entranha". Uma outra premissa desta reflexão está em que tudo o que a sociedade produz é relacionado com ter e gastar, onde o "comer" é verbo que transcende a sua realidade, se trasnformando numa antologia: Queremos comer tudo e todos - Logo, somos artefatos para o consumo. Apenas isto. Servimos para consumir, como bichos primários sentimos cheiros para comprar, degustamos para sentir mais vontade, vomitamos para nos esvaziarmos. O desejo pelo desejo. O querer pelo querer. O comer tem um caráter, em sua origem, uma questão de necessidade, hoje é um capricho e um passa tempo. Quem transformou a comida em produto de apreciação e que custa dinheiro? Tudo foi manufaturado. Quanto custa a cor inigualável do Caqui? E a aguá fresca da fonte, hoje blindada pelo rótulo de grandes empresas e donos ? Neste estado o ser humano se transfigurou em um ser-obejto, fundamentado pela sua relação com o mercado e não mais com sua conquista de territórios de histórias, que são equações de dores, sonhos, delírios, sofrimentos e esperanças com o mundo e os outros semelhantes. Não sonhamos mais porque nos sentimos esmagados pelo acumulo solitário de nossos anseios e temores, mover-se é impossível. A massa é muralha da impossibilidade. A consciência coletiva é coisa de livros e pensadores de uma época idealista. O que farei frente a injustiça e a mão invisível e gigantesca que manipula e destroça a rotina do coletivo subjetivo chamado sociedade? Eis a fórmula dantesca desta apática e paralisia de causa que chamamos hoje de alienação.

Independência ou morte!

Vida de cimento. Vida de proletariado, perdido entre a mão e a produção. A miséria da cidade está nas pessoas. O verdadeiro lixo está na mente daqueles que se intitulam gente. Existe possibilidade de reciclagem? Há possibilidades que não são reais, quando a alma deixa de existir e quando o brilho foi ofuscado pela falência. Existirá um ponto de cura? Não há remédios para defuntos. Torçamos pela brisa e pela catástrofe ecológica, talvez ela regenere aquilo que homens e mulheres perderam ou deixaram-se morrer. Proclamo isto, porque nem projeto e nem políticas mudaram aquilo que nosso corpo já diagnosticou e nossas idéias professaram. Pessimismo ou modo de esperança realista? Nem Marx e nem Buda sabiam da pedagogia regerativa do cosmos na imanente ignorância humana e social. Independência ou morte? A espada do império enferrujou e sonhamos com um terreno de supremacia e justiça. Prefiro a morte, quem sabe assim sobra-me um pouco de vida e uma lógica natural, sem revoluções, leis, consensos e carteira assinada: faço prece pelos pés carregados de frutas e o rio cheio de seres mais relevantes que o bípede de barbas e seios - uma aberração do intelecto.