porta quebrada

Esta página não tem intenção de ser reconhecida pelos "outros", mas serve de alívio para o que nela tenta escrever, rabiscando sentidos e percepções. Fadada ao caos do tempo alienado dos compromissos, aqui a mão e o cérebro se faz silêncio e palavra que perfura até o chão da rotina, ou seja, aquilo que deveria ser e não é mais. Por isso, neste espaço não existe porta, pois está quebrada, arrebentada pela liberdade do interesse.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

queimar, um ato de ser


Putz! Acabei de sair de uma mesa inojada de falas tantas, donde surgiam conceitos como "marxismo", "igreja" e estas coisas tão faladas e ao mesmo tempo tão ocas pela capacidade do ser humano de divagar a sua mente para lugares onde os olhos não enxergam e as mãos nunca tocarão. A delicadeza é a capacidade sutil de pensar, sem pensar. Fernando Pessoa já dizia que "pensar é não viver", talvez este poeta deva ter mergulhado em ambientes assim tão estranhos e patológicos. Hoje não suporto, nem com esforço diplomático, escutar hipóteses e sermões. Escolho olhar para coisas simples, do metrô submerso na terra, a falta de vergonha dos políticos que a cada dia matam vidas e projeções de uma gente "bandificada" na rotina do trabalho de subsistência nas linhas definidas e públicas da cidade. Não quero livros e púlpitos de oradores, quero a palavra do colono e do taxista. Vago entre o silêncio dos adjetivos e substantivos ao barulho ensurdescedor das ruas da cidade. A vida feito em consciência é como vela determinada ao processo de morte. Só se ilumina com a possibilidade certeira do não existir. Velai! esta é a convocação. 

domingo, 12 de dezembro de 2010

verbo cidade

Aqui na cidade grande, o suor é parte do dia
Já o trabalho resume a fadiga
A rua é passagem de pneus

O prédio desliza concreto
O chão bebe esgoto
A chuva lava escadas

A escola escondi gente
Lá onde a criança não aprende
A igreja morre gritando

O marujo está no boteco
Samba sem rima e remédio
O analfabeto é um leitor

A senhora dormi de desgosto
na cabeceira um santo em dorso
O mar subiu e a florestra diminui

O sapo é raro de se ver
Vagalume quero ter
No fio o tênis balança

A letra serve pra dizer nada
A garaganta goteja saliva de fumaça
No placo mais um novo holofote

Papéis são lixo
depende do verbo que reciclo
Aqui faço ponto, encerro tentantiva

Há tempos não digo inspiração
Palavra inexistente é salvação
O punho soluça um instante de respiro

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Saudosa infância


Achei um momento para acariciar lembranças de seus lábios
Exilei-me no trabalho louco do compromisso sem rumo
Hoje, ontem e amanhã sou mais outros que eu mesmo

Na infância tenho a memória de campos e chuvas
O lambuzar dos pés na lama de um morro em terra e capim
O cheiro do rio marrom com pedras esverdeadas, saudade gelada

A menina da adolescência era magra, feia, mas esbelta e única
Na praça esperam meus amigos descabelados e suados pelo coro da bola
Hoje metade já morreram, mas cabem na certeza de um passado presente

Meus dedos sujos de laranja e poeira, inventavam brinquedos e armas
A lombriga armazena pedaços de desejos, leite e macarrão em frango
O forno quente de minha mãe e o fogão de lenha de minha vó convida

Amanhecer com frio nos pés e curiosidade no peito sempre em férias
Os olhos melados pela noite em sono de pedra, sem voz e idéia
Se fizesse um castelo já seria um contentamento por ele mesmo

A rua como porta de uma casa, sem noite e medo, apenas extensão do criar
Casas abandonadas garimpavam romances nem vividos de potenciais amantes
Altas árvores da praça e dos vizinhos eram a ponte da superação e reconhecimento

A dor de um machucado era motivo de cuidado e zelo
Na mesa do café um bocado de remédios em guloseimas
Na geladeira sobras de fartura e de abundante carinho armazenado

Doce imagem, nesta seca de palavras e de gente falando
busco o ermo de meus pés e os neuroneos de minha infância
As tintas estão guardadas e meu violino vendi para um bazar

Deste lado vejo e cheiro a vida em mortes tantas, que nem conto
No céu mergulha gotas de chuva, prestes a derramarem-se em choro
Aqui nesta sala vejo o que fui, sou, serei e deixarei de ser

Os olhos captam muito, mas a razão atrapalha a verdade tão simples e imediata
Hoje o tudo que representa para mim é o nada equacionado emanentemente pela vida
A infância é o início de um morrer misterioso e criador, que pari-nos a cada instante desapercebido

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

nada o que é


Hoje tive um sonho, nada extraordinário, nem tão comum. Foi um golpe leve e certeiro na consciência de meus olhos e o resto do que chamo corpo. Como uma aparição de sentido e orientação intelectual. Vi Buda, sentado na terra feito raiz em mergulho aos extratos mais simples e naturais da terra. Rindo e mexendo-se de maneira jocosa e jovial, leve como pena na fazenda e alegre feito minhoca na floresta. Estava lá, sem trabalho, sem compromisso, sem desconforto psicológico, mental, físico, sem a ambição de um lugar de prazer desejável. Como uma árvore simples, num horizonte e espaço de vista sem grandes expectativas. Sem cenário conhecido de apetrechos e adereços próprios do que chamamos civilização (tribal, rural e/ou urbana). Neste lance de imagens surgiu um contraponto espontâneo. Imaginei de maneira dialogal a vida que levo e hei de levar frente a tantas expectativas e crenças “rídiculos”, “minúsculas” ou “profundas” e “grandiosas”. Entramos numa lógica que neste sono-sonho se evidenciou. Este pensamento e a premissa que ora iniciou é sutil, pois é comida, razão e ar existencial de nossos dias, enfim, o contrário é morte de tudo que afirmamos como vida. Ontologicamente somos feitos de uma coisa que a história de tantos homens e mulheres nos construíram e edificaram o que somos e queremos ser hoje e amanhã. Herdamos um espírito, um corpo viciado e uma mentalidade que nos posiciona e nos lança em movimento de tantas descobertas e conquistas – porém, todas fora e longínquas do eixo e do alvo do que somos realmente. A morte-defunto dos outros nos vêem feito agressiva verdade, pensamos do que vale tudo que temos e somos feito perante a objetiva e modal nadicidade da morte. Na morte nem as palavras do pastor padre e guia servem para alguma coisa. O Deus que pintamos virtualisticamente em nossa rotina neste momento não existe e nem tem razão de existir. Nossas entranhas de certezas seca, sem fertilidade de imagens e motivações. Nesta experiência que não escolhemos e somos postos frente ao chão real do processo natural da existência somos feito silêncio e pó. No velório até pensamos e vivemos isso de maneira intensa e espontânea, mas depois enterramos junto as nossas dores e a nossa natural consciência. Voltamos para os assuntos e critério dos vivos. Somos feito de nada em meio há tantas coisas e absurdos que não imaginamos mais como um apêndice e uma roda de diversão. Somos formigas com peso de elefantes. Somos uma soma de expectativas de consumir matérias, idéias, sentimentos e tantas e tantas projeções, projetos e coisas do gênero social e político que vivemos. O próprio trabalho digno que levamos e confessamos a cada dia é uma razão alienada, manipulada. A causa que luto de consciência política também nada mais é que exagero de enganação de um estado de deficiência e corrupção de capitalismo (enquanto armazenamento e fome insaciável) e poder (status insatisfatório, infinito, inacabável). Parar no não-fazer, no não-pensar resultará numa consciência simples, estranha, tola, imbecil, inútil, vagabunda,  mas libertária. Sair do movimento cotidiano do social e relacional existente, nos lança para um nada criador e integrador. Jejuar frente a esta cena é focar naquilo que seremos sem escolha ou crença. A existência circular se codifica numa outra lógica, sem as premissas carnificadas por o que hoje imaginamos e conscientemente somos.

domingo, 12 de setembro de 2010

Utopia é a possibilidade inédita, enfim, o ineditável possível, o possível não-realizado!

R-evolução


Revolução é sinônimo de mudança da consciência massiva/ coletiva. Para chegarmos a esta esperada e necessária situação, teríamos que iniciar uma transformação mínuscula, contudo, decisiva do que realmente entendemos e construímos enquanto educação. Não falo aqui de educação formal ou não-formal e informal, mas sim, de possibilidade de conhecer a hsitória de nossas cicatrizadas dores e celulares esperanças. Aprendemos tantas coisas, porém, nada se transforma em alimento para vida e sentido-enstusiasmo para os nossos ontológicos calejados pés. Quem sabe linearmente o contexto de opressão em que o povo das terras amazônicas viveram? Quem ousaria descodificar imaginativamente a intenção dos atuais governos? Quem desvenda a razão do dado e inquestionável processo assalarial na sociedade? O que é sociedade e quem foi verdadeiramente Napoelão e este tal, divinzado, Jesus? Não falo de educação de professores, mas de diálogos domésticos entre pais e filhos, entre jornaleiro e gari. A educação é um processo de criação e de retorno aquilo que não nos deixaram saber e que, diariamente, nos escondem frente aos deveres cotidianais e engendrados no tão labor laborial.   

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

questão de fé



Cremos, isto é uma expontânea e autêntica  verdade, porém, a fé é uma questão de moda. Ou seja, mudam as cores, formas, estilos, sabores, modelos, mas o princípio necessário e inconscientemente intrínseco na natureza humana de adicionar "roupagem" mítica, certa, lendária, óbvia, além-imanente, é a essência deste fenômeno, por isso, permanece, não se modifica. Esta é a única tese louvável ou empírica do que chamamos de "fé".

Esmagamento público

Como alguém capaz de assinar políticas, e logo, orçamentos, perceberá o massacre cotidiano que acontece nos enlatados do transporte público na cidade de São Paulo? Hoje sei que a mudança acontece quando a prioridade dos sentidos denuncia. Neste exato momento de esmagamento e outras surreais situações, o engravatado anda com o seu carro em ares condicionados. Enquanto isto uma massa de operários de escritórios e empresas endinheiradas ou não, mendigam ar, esfolam-se no corpo do outro, esmagam-se em pisões. Caos alienante de uma massa escrava que paga grandemente (falo de dinheiro mesmo!) pelo seu sofrimento. O pior é que a culpa está na população que não se organiza para acabar com esta bagunça, esta vergonha (assim exclama um guarda refém de sua necessidade de poder). Isto é palavra suada na equação de uma angústia numerosa e cotidiana, por isso uma denúncia não oficiosa em cadastros. Protestar? Como? Se não há tempo e o que prevalece é o interesse do patrão. Em outras épocas o meu tema seria sobre as imagens de Deus ou a revolução da humanidade, hoje resumo meu sofrimento denunciador na miséria mortal de hábitos urbanos, poucos solidarizados pela lógica e tentativa de respostas de pensadores e técnicos da denúncia. Não tenho imaginação ociosa para pensar no não-pensado. Vejo o que escrevo e escrevo o que vejo. Padecemos pela falta de intelectuais e políticos operários. Eu fico aqui na margem entre o esgoto e a fumaça, arredar o pé é morrer famoso pela aparência daquilo que deixei de ser.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Político Operário


O direito é a medida da saúde humana. O problema que os entes representativos não convivem nos espaços, lugares e logo nas situações da grande maioria dos indivíduos. Um governo deve por essência ser solidário (derivado da palavra latina solis-uno). Escrevo neste momento num metro lotado de gente uma pessoa perdeu os óculos, pisoteado pela massa atrasada que entrou na estação da Luz. Ao lado uma menina roçada por um homem alto e bem perfumado. Não existe espaço o ar é mergulhado em cm's de sufocamento, parece materializar-se num cinza amarronzado. Esta é lida diária. Estes são os momentos que me encontro solitário e esmagado pela falta de inteligência e honestidade de toda a aparelhagem publica. Somos advogados se nosso próprio acaso. Tenho que parar de escrever, pois estou atrasado para o meu ganha pão. Ócio e bem estar são para aqueles que herdam capitais. A palavra riqueza e pobreza não são conceitos de um esquerdista, mas motor de uma realidade que esta no centro de meus olhos e no aprofundamento diário de meus passos, pisoteados pela multidão sofrida, abusada, faminta, suada, cansada, asmática e estrupada. A saída esta num político operário, com mão na massa, na massa daquilo que DEVE ser mudado, pois a morte impera sobre a vida, beste exato momento e nos dias que seguem.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Eleições dos fracos

Estamos em época de eleições, era de palvras, sálivas em microfones e cabelos preparados para TV´s. Neste cenário o sorriso não é um broto de contentamento. Quantas promessas, dizeres de futuro vendidos como não tão óbvios, porém tem raíz de mesmice. O plano de desenvolvimento de cada candidato soa de maneira repetida, dá nausea, sentimento espontâneo de repelimento, diante de slogans ditados pelo menos há 5 décadas de campanhas passadas. Hoje uma coisa passa despercebida, de maneira estranha mas anatômica, não precisamos de direitos básicos. Mas porque não? Pois isto está assegurado por uma constituição detalhada em artigos e parágrafos, se não está aplicada é outra coisa. Precisamos de governos que saibam guiar um barco em ventos tempestuosos e fortes, como língua de fogos de dragões inimagináveis, não errar rumos, ter no músculo a história do trabalho frente a sonhos de rumos para o todo, não para partes, minorias, elites, selecionados. Necessitamos não de obviedade, mas de percepções diante de direitos mais refinados, imperceptíveis. Não quero ter direito ao transporte, isto é uma premissa superada politicamente, quero sim, andar em um transporte com estilo, com ar favorável, com espaço oportuno e tempo hábil. Vivemos numa época em que não queremos comida, mas cultura de degustação. Não quero hospitais quero saúde. Quero direito o meu direito. Temos que superar o mínimo sempre apresentado como mérito. Não fazer o essencial é crime, fazer o que é difícil e mais sensível é mérito de líderes, por isso, de homens e mulheres aptos a serem eleitos. Sofremos de falta de criatividade e de trabalho de grandes governos. Um governo não deve ser pautado em ofertas daquilo que é dever primário, como: ter comida, trabalho, lazer, moradia, educação. Precisamos de lógicas governamentais que apontem para soluções mais dignas. Ficou claro? É mais fácil pensar naquilo que é pensado, vender aquilo que é estoque é mais fácil. Fraqueza é princípio a ser monitorado nas aparências de cada flash, alienador, dos ditos candidatos. Fraco é aquele que não tem capacidade de dar um passo no diferente, na fartura da idéia ou um olhar para a necessidade do belo, bom e acochegante. Este é o direito que precisamos: o direito a critiavidade das soluções que tanto necessitamos, antes que morramos, e desfrutemos o que verdadeiramente é justo.

domingo, 11 de julho de 2010

hoje é dia

Um domingo a mais e recordo-me das centelhas de instantes em que posso me perceber em minha rotina. Perceber = ser dono de meus sentidos e observar aquilo que está fora de mim ou tão em mim. Quantos livros já li e outros deixei de ler, misteirosamente esquecidos na gaveta de meu quarto. Soube ontem que duas pessoas se suiciram, com a frase deixada: "Não tenho mais sentido para continuar vivo". Donde brota esta afirmação por vezes tão impulsiva e outras vezes meditada como pedra mergulhada na florestra. Sentado neste banco e com a lógica destas palavras procuro uma gota de reflexão que me distraia do ócio domingueiro, que traz nos pés os calos de minhas angústias e na cabeça o peso da fatalidade e acaso. Amanhã tenho agendas de reuniões e hoje não consigo dormir no silêncio de meu travesseiro, somos aquilo que queríamos ser? Eis uma pergunta que faço, sem somas de interpretações ou retórica juvenil. Do outro lado da parede o velho assiste um programa televisionado em qualquer parte do mundo, com um sorriso no canto da boca, satisfação viceral. Eu, aqui com esta coisa sem dor, sem alegria, nem espectativa, cego-me em tentadas reflexões. Quero um sentimento conhecido para agarrá-lo em minha compreensão, enquanto isto, perco-me nas horas e nauseio o dia.

domingo, 13 de junho de 2010

Bamba em samba


Escrevo em samba o que me bamba,
Soletro imagens para cantar saudades
Quem morre longe das guerras e da fome,
é amante e artista do carnaval solene

Salve a avenida de brilho e alegria
moro no beco, sou do morro
sou do povo, nasci no quintal

Ontem falei de infância e pipas,
hoje em rodas já penso na morte
quero amar minhas amadas em letras,
algumas lembradas, muitas esquecidas

Salve a avenida de brilho e alegria 
moro no beco, sou do morro
sou do povo, nasci no quintal

Verbo existir


Pare de ser solidário, seja crítico
Não queira o céu, escolha o subterrâneo
Não vote, assuma
Esqueça as letras e prefira a palavra
Quebre a porta e descubra a rua
Ame a estrangeira e admire sua família,
Eduque-se para não parar,
Denuncie o seu patrão,
Escolha um filho,
Compre passagens,
Roube alimentos,
Mantenha o escuro,
Prefira o sol,
Seja médico e abandone os argumentos,
Mergulhe em florestas, evite parques
Aventure-se no mar, esqueça o futuro
Ria dos engravatados,
Seja amigo dos mendigos,
Personalize os andarilhos,
Nomeie as flores,
Decore os atalhos,
Construa no seu jardim lares,
Nos becos cultura,
Seja amigo dos artistas,
Guerreie com os empresários,
Leia o tempo,
Abrace uma praia,
Na rotina esfregue as mãos,
Perca mais sonos,
Durma até doer,
Descanse de vez em quando numa Igreja,
Procure o silêncio,
mas seja boêmio
Seja gentil sincero,
Não perca a dureza,
Mas afague-a com humildade
Procure menos substantivos e adjetivos,
Use o verbo
Sofá é para pensar e não assistir tv,
Volte para seu passado e pinte-o,
Seja maestro de imagens e não ator de ficção,
O quadro transcende, enquanto a cena mata
Inicie antes de acabar

IVONE LARA

Quem não acreditará na capacidade do ser humano de transcender a sua fatalidade na rotina laboral ao ver em carne e batom Dona Ivone Lara, mulher ressuscitada e imortalizada sem tratados ou especulação. Vemos nela a vida e vida que nos escapa em letras e olhos. Queria tempo para mergulhar em cada palavra, sílaba confeccionada pelo talento misterioso desta mulher com ar de deusa, mulher, mãe e história. Hei um dia de conhecer este palco?

Europa, mestiça

Quem foi que disse que a Europa é celeiro de uma intelectualidade exemplar e de respostas técnicas para toda humanidade? E aí, quem é essencialmente o europeu? Ao lermos a história deste território teremos dados não muito "nobres" ou similares com o que hoje concebemos frente a este continente. Obras de arte, prédios e templos "inigualáveis" no arranjo de sua arquitetura, tratados filosóficos e religiosos, tornou-se referência de cultura e pensamento pela sua capacidade de posicionamento e ordem frente a outros grupos territoriais, muitas vezes com as rosas da colonização. Neste universo de status e projeções voltamos ao cenário de alguns anos atrás: Terra de bárbaros = cultura baixa, agressiva e primitiva. Assim era o que hoje conhecemos como Europa. Um povo feito de bárbaros. As invasões e permeações das culturas árabes e outros extratos orientais regeram uma nova cultura em que foram apresentados elementos fundamentais para este cenário e concepção hoje existente. A arquitetura foi analisada e matematizada pelos arquitetos orientais. E o pensamento intelectualizado dos filósofos, arrogantemente ocidentais, surge com os escritos do mestiço Aristóteles manuseados por estes mesmos povos oriundos de um lugar diferente do que até então se conhecia como "Europa". O Europeu é aquele povo que recebe, tem a capacidade da síntese do outros(S). Hoje no futebol temos a impressão de que quem joga na Europa tem um carimbo de qualidade intransponível. Porém, com base nesta analise é evidente, estatístico e descritivo que não existe futebol forte, bonito, criativo, disciplinar "europeu" por si mesmo. Mas sim, um campo de jogadores mundiais escolhidos nos países na sua grande maioria "periféricos". Um povo de costura e que serve de ponte, que comunica e integra os diferentes este é o seu mérito, mas também ronda nesta experiência e formato de ser um perigo de uma superficial concepção das origens. Uma derivação superficial de fatos e conteúdos de outras culturas com o seu contexto e suor. A cultura é elemento que brota, equaciona-se no grito de uma necessidade histórica e local. Pelo contrário torna-se enxerto e isopor frente ao prato principal incopiável. Acabo com esta reflexão invocando historicamente a imagem de um homem ocidentalizado, ou seja, acidentalizado pelos povos europeus, Jesus de Nazaré, foi um profano e um líder político subversivo pela sua proposta nada eclesiástica. Porém, o roubo histórico desta imagem histórica, para um povo do deserto fecundo, que foi vulgarizada pela mente coletiva de um povo que busca e engendra-se no respirar do poder, que quer lucrar com bandeiras e verdades, outros lugares e povos mais refinados e sabedores de sua própria cultura. A maldita colonização é símbolo de descarga de contradições lógicas e conceituais de um povo confuso e tagarela de outras culturas. A Europa não nasceu assim, é creche de nossas crianças latinas, africanas, árabes e tantas outras identidades. O nosso ouro está lá e as bibliotecas de nossos vizinhos foram mal copiadas e os originais queimados. Um povo genérico e sem a classificação da originalidade e autenticidade de uma cultura, no sentido pleno da palavra. Salve a mestiçagem, fruto de um capital pouco discutido e colocado na mesa de nossas concepções e relações. Saber disso é legitimar no seu devido lugar a dignidade de muitas culturas massacradas pela arrogância crassa de alguns umbigos de povos, chamdos de "centrais", porém tão marginais quanto a sua história “bárbara”.

domingo, 30 de maio de 2010

Ação Cotidiana

Sem pensar. Uma atitude tão cotidiana, que se confunde com a ética. Humanamente falando isto é normal. Há doenças mais mortais do que aquelas as quais encontramos antibióticos na farmácia.

Capitaliza

Hoje descobri que o capitalismo trouxe uma vantagem para as sociedades urbanas: a oportunidade de usufruir de possibilidades antes tão monárquicas, encasteladas, isoladas pela equação de uma casta e/ou de uma herança vitalícia, que confunde ter com ser, saldos financeiros com sangue e sangue com qualificação de poder. O poder é uma caverna platônica, na qual seres humanos não são humanos mas reflexos de uma sombra imaginativa, que para isto acreditam e morrem. Hoje com dinheiro a pessoa tem acesso e tem a capacidade de fazer o que quer. Antes, não há muito tempo, existiam poucos barbeiros, na atualidade em cada esquina enxergamos um salão, pronto para ser usado por quem e quando quiser, basta pagar. A doçura e a salvação do capitalismo está na sua capacidade de apontar para a igualdade, ou seja, eis a grave contradição: aquilo que não se tem pode se ter - esta é a matemática capitalista, tão humanista e tão dantesca. Acho que nestas linhas quase entrei numa lógica da qual o pensador denunciava: "Somos livres para consumir!" Interpretar este aforismo é mergulhar na coragem de romper e deixar-se morrer nesta vida cotidiana de capital. Capitalizamos as nossas vontades e perpspectivas. será isto um mal ou um benefício? Historicamente vivemos na tautologia do consumir e do acúmulo.

domingo, 16 de maio de 2010

Os Dez Mandamentos, revistos e atualizados


Considerando que a obediência à versão original dos Dez Mandamentos foi apenas aleatória, desta vez o Altíssimo teve a prudência de acrescentar a cada um deles uma nota de explicação, destinada em particular aos impenitentes...


I – Não Comprarás o Estado
 
Resgatar a dimensão pública do Estado: Como podemos ter mecanismos reguladores que funcionem se é o dinheiro das corporações a regular que elege os reguladores? Se as agências que avaliam risco são pagas por quem cria o risco? Uma das propostas mais evidentes da última crise financeira, e que encontramos mencionada em quase todo o espectro político, é a necessidade de reduzir a capacidade das corporações privadas, ditarem as regras do jogo. A quantidade de leis aprovadas no sentido de reduzir impostos sobre transações financeiras, reduzir a regulação do Banco Central e autorizar os bancos a fazer toda e qualquer operação, somada com o poder dos lobbies financeiros, torna evidente a necessidade de resgatar o poder regulador do Estado; para isso, os políticos devem ser eleitos por pessoas de verdade, e não por pessoas jurídicas que constituem ficções em termos de direitos humanos. Enquanto não tivermos financiamento público das campanhas e políticos que representem os interesses dos cidadãos, prevalecerão os interesses econômicos de curto prazo e a corrupção.

II – Não Farás Contas Erradas

As contas têm de refletir os objetivos que visamos. O PIB (Produto Interno Bruto) indica a intensidade do uso do aparelho produtivo, mas não indica a utilidade do que se produz, para quem, e com que custos para o estoque de bens naturais de que o planeta dispõe. Conta como aumento do PIB um desastre ambiental, o aumento de doenças, o cerceamento de acesso a bens livres. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) já foi um imenso avanço, mas temos de evoluir para uma contabilidade integrada dos resultados efetivos dos nossos esforços, e particularmente da alocação de recursos financeiros em função de um desenvolvimento que não seja apenas economicamente viável, mas também socialmente justo e ambientalmente sustentável. As metodologias existem, aplicadas parcialmente em diversos países, setores ou pesquisas. A adoção, em todas as cidades, de indicadores locais de qualidade de vida tornou-se hoje indispensável para medir o que efetivamente interessa: o desenvolvimento sustentável, o resultado em termos de qualidade de vida da população. Muito mais que o output, trata-se de medir o outcome.

III – Não Reduzirás o Próximo à Miséria

Algumas coisas não podem faltar a ninguém. A pobreza crítica é o drama maior, tanto pelo sofrimento que causa em si, como pela articulação com os dramas ambientais, o não acesso ao conhecimento, a deformação do perfil de produção que se desinteressa das necessidades dos que não têm capacidade aquisitiva. A ONU (Organização das Nações Unidas) calculou, no ano 2000, que custaria US$ 300 bilhões tirar da miséria um bilhão de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. São custos ridículos quando se considera os trilhões transferidos para grupos econômicos no quadro da última crise financeira. O benefício ético é imenso, pois é inaceitável a morte de 10 milhões de crianças por ano, devido a causas ridículas. O benefício de curto e médio prazo é grande, na medida em que os recursos direcionados à base da pirâmide dinamizam imediatamente a micro e pequena produção, agindo como processo anticíclico, como se tem constatado nas políticas sociais de muitos países. No mais longo prazo, será uma geração de crianças que terá sido alimentada decentemente, o que se transforma em melhor aproveitamento escolar e maior produtividade na vida adulta. A teoria, tão popular, de que o pobre se acomoda se receber ajuda, é simplesmente desmentida pelos fatos: sair da miséria estimula, e o dinheiro é mais útil simplesmente onde é mais necessário.

IV – Não Privarás Ninguém do Direito de Ganhar o seu Pão


Universalizar a garantia do emprego é viável. Toda pessoa que queira ganhar o pão da sua família deve poder ter acesso ao trabalho. Num planeta onde há um mundo de coisas a fazer, inclusive para resgatar o meio ambiente, é absurdo o número de pessoas sem acesso a formas organizadas de produzir e gerar renda. Temos os recursos e os conhecimentos técnicos e organizacionais para assegurar, em cada vila ou cidade, acesso a um trabalho decente e socialmente útil. As experiências de Maharashtra, na Índia, demonstraram a sua viabilidade, assim como as numerosas experiências brasileiras, sem falar no New Deal da crise dos anos 1930. São opções onde todos ganham: o município melhora o saneamento básico, a moradia, a manutenção urbana, a policultura alimentar. As famílias passam a viver decentemente; e a sociedade passa a ser melhor estruturada e menos tensionada. Os gastos com seguro desemprego se reduzem. No caso indiano, cada vila ou cidade é obrigada a ter um cadastro de iniciativas intensivas em mão de obra. Dinheiro emprestado ou criado desta forma representa investimento, melhoria de qualidade de vida, e dá excelente retorno. E argumento fundamental: assegura que todos tenham o seu lugar para participar na construção de um desenvolvimento sustentável. Na organização econômica, além do resultado produtivo, é essencial pensar no processo estruturador ou desestruturador gerado. A dimensão de geração de emprego de todas as iniciativas econômicas tem de se tornar central.

V – Não Trabalharás mais de 40 Horas

Podemos trabalhar menos, e trabalharemos todos, com tempo para fazer coisas mais interessantes na vida. A subutilização da força de trabalho é um problema planetário, ainda que desigual na sua gravidade. No Brasil, o setor informal situa-se na ordem de 50% da PEA (População Economicamente Ativa). Uma imensa parte da nação “se vira” para sobreviver. No lado dos empregos de ponta, as pessoas não vivem, por excesso de carga de trabalho. Não se trata aqui de uma exigência de luxo: são incontáveis os suicídios nas empresas onde a corrida pela eficiência se tornou simplesmente desumana. O estresse profissional está se tornando uma doença planetária, e a questão da qualidade de vida no trabalho passa a ocupar um espaço central. A redistribuição social da carga de trabalho torna-se hoje uma necessidade. As resistências são compreensíveis, mas a realidade é que, com os avanços da tecnologia, os processos produtivos tornam-se cada vez menos intensivos em mão de obra, e reduzir a jornada é uma questão de tempo. A redução da jornada não reduzirá o bem-estar ou a riqueza da população, e sim a deslocará para novos setores mais centrados no uso do tempo livre, com mais atividades de cultura e lazer. Não precisamos necessariamente de mais carros e bonecas Barbie, precisamos sim de mais qualidade de vida.

VI – Não Organizarás a tua Vida em Função do Dinheiro

A mudança de comportamento, de estilo de vida, não constitui um sacrifício, e sim o resgate do bom senso. Neste planeta de 7 bilhões de habitantes, com um aumento anual da ordem de 75 milhões, toda política envolve também uma mudança de comportamento individual e da cultura do consumo. O respeito às normas ambientais, a moderação do consumo, o cuidado no endividamento, o uso inteligente dos meios de transporte, a generalização da reciclagem, a redução do desperdício – há um conjunto de formas de organização do nosso cotidiano que passa por uma mudança de valores e de atitudes frente aos desafios econômicos, sociais e ambientais. Hoje, 95% dos domicílios no Brasil têm televisão, e o uso informativo inteligente deste e de outros meios de comunicação tornou-se fundamental. Frente aos esforços necessários para reequilibrar o planeta, não basta reduzir o martelamento publicitário que apela para o consumismo desenfreado; é preciso generalizar as dimensões informativas dos meios de comunicação. A mídia científica praticamente desapareceu, os noticiários navegam no atrativo da criminalidade, quando precisamos vitalmente de uma população informada sobre os desafios reais que enfrentamos. Grande parte da mudança do comportamento individual depende de ações públicas: as pessoas não deixarão o carro em casa (ou deixarão de tê-lo) se não houver transporte público; não farão reciclagem se não houver sistemas adequados de coleta. Precisamos de uma política pública de mudança do comportamento individual. 

VII – Não Ganharás Dinheiro com o Dinheiro dos Outros

A filosofia do imposto, de quem se cobra e a quem se aloca, precisa ser revista. Uma política tributária equilibrada na cobrança e reorientada na aplicação dos recursos constitui um dos instrumentos fundamentais de que dispomos, sobretudo porque pode ser promovida por mecanismos democráticos. O eixo central não está na redução dos impostos, e sim na cobrança socialmente mais justa e na alocação mais produtiva em termos sociais e ambientais. A taxação das transações especulativas (nacionais ou internacionais) deverá gerar fundos para financiar uma série de políticas essenciais para o reequilíbrio social e ambiental. O imposto sobre grandes fortunas é hoje essencial para reduzir o poder político das dinastias econômicas (10% das famílias do planeta são donas de 90% do patrimônio familiar acumulado no planeta). O imposto sobre heranças é fundamental para dar chance a partilhas mais equilibradas para as sucessivas gerações. É importante lembrar que as grandes fortunas do planeta, em geral, estão vinculadas não a um acréscimo de capacidades produtivas, e sim à aquisição maior de empresas por um só grupo, gerando uma pirâmide cada vez mais instável e menos governável de propriedades cruzadas, impérios onde a grande luta é pelo controle do poder financeiro, político e midiático, e a apropriação de recursos naturais. O sistema tributário tem de ser reformulado no sentido anticíclico, privilegiando atividades produtivas e penalizando as especulativas: no sentido de maior equilíbrio social, ao ser fortemente progressivo; e no sentido de proteção ambiental, ao taxar emissões tóxicas ou geradoras de mudança climática, bem como o uso de recursos naturais não renováveis. O poder redistributivo do Estado é grande, tanto pelas políticas que executa – por exemplo, as políticas de saúde, lazer, saneamento e outras infraestruturas sociais que melhoram o nível de consumo coletivo – como pelas que pode fomentar, como opções energéticas, inclusão digital e assim por diante. A democratização aqui é fundamental. A apropriação dos mecanismos decisórios sobre a alocação de recursos públicos está no centro dos processos de corrupção, envolvendo as grandes bancadas corporativas, por sua vez ancoradas no financiamento privado das campanhas.

IX – Não Privarás o Próximo do Direito ao Conhecimento

Travar o acesso ao conhecimento e às tecnologias sustentáveis não faz o mínimo sentido. A participação efetiva das populações nos processos de desenvolvimento sustentável envolve um denso sistema de acesso público e gratuito à informação necessária. A conectividade planetária que as novas tecnologias permitem constitui uma ampla via de acesso direto. O custo/benefício da inclusão digital generalizada é simplesmente imbatível, pois é um programa que desonera as instâncias administrativas superiores, na medida em que as comunidades com acesso à informação se tornam sujeitos do seu próprio desenvolvimento. A rapidez da apropriação desse tipo de tecnologia, até nas regiões mais pobres, se constata na propagação do celular e das lan houses mais modestas. O impacto produtivo é imenso para os pequenos produtores, que passam a ter acesso direto a diversos mercados, tanto de insumos como de venda, escapando aos diversos sistemas de atravessadores comerciais e financeiros. A inclusão digital generalizada é um destravador potente do conjunto do processo de mudança que hoje se torna indispensável. A criação de redes de núcleos de fomento tecnológico on-line, com ampla capilaridade, pode se inspirar na experiência da Índia, onde foram criados núcleos em praticamente todas as vilas do país. O World Economic and Social Survey 2009 é particularmente eloquente ao defender a flexibilização de patentes no sentido de assegurar ao conjunto da população mundial o acesso às informações indispensáveis para as mudanças tecnológicas exigidas por um desenvolvimento sustentável.

X – Não Controlarás a Palavra do Próximo

Democratizar a comunicação tornou--se essencial. A comunicação é uma das áreas que mais explodiu em termos de peso relativo nas transformações da sociedade. Estamos permanentemente cercados de mensagens. As nossas crianças passam horas submetidas a publicidade ostensiva ou disfarçada. A indústria da comunicação, com sua fantástica concentração internacional e nacional – e a crescente interação entre os dois níveis – gerou uma máquina de fabricar estilos de vida, um consumismo obsessivo que reforça o elitismo, as desigualdades, o desperdício de recursos, como símbolo de sucesso. O espectro eletromagnético em que estas mensagens navegam é público, e o acesso a uma informação inteligente e gratuita para todo o planeta é simplesmente viável. Expandindo gradualmente as inúmeras formas alternativas de mídia, que surgem por toda parte, há como introduzir uma cultura nova, outras visões de mundo, cultura diversificada e não pasteurizada, pluralismo em vez de fundamentalismos religiosos ou comerciais.

Sendo o Secretariado do Altíssimo, hoje, bem equipado, os que por acaso tenham dificuldades técnicas poderão se instruir com outros Assessores, em linha direta sob www.criseoportunidade.wordpress.com. Ignacy Sachs, Carlos Lopes e Ladislau Dowbor expressaram aqui opiniões pessoais, e reclamações deverão se dirigir a instâncias superiores.

Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia, e professor titular da PUC-SP. É autor de A reprodução social e Democracia economômica - um passeio pelas teorias (contato http://dowbor.org).




































domingo, 9 de maio de 2010

Armada revolução

Os nossos revolucionários latinos foram convictamente armados. Uma convulsão histórica, arroto do passado, de Alexandre Magno ao condenado e borrado Hitler. Onde se equaciona a possibilidade da mudança e a tão esperada garantia da equidade? Até mesmo o galã e intelectual revolucionário acreditou profundamente no poder de sua arma.

lei mais lei

Na malha dos repreentantes diplomáticos e judiciais percebe-se uma linguagem robusta de dizeres tão téncica, tão técnica que você duvida se veridicamente é real. hoje existe explicação e sistema para tudo. Uma lei justifica a outra, por isso, sua utilidade e produção é infinita.  Quando um juiz fala ou discute com um promotor, pergunto-me em que planeta eles vivem? Falam de vidas e de situações. Definem em colegiado normas e diretrizes. mas quem saberá desta definição. Aquilo que assegura o direito de um pobre cidadão vive na gaveta ou na imaginação daquele que legisla. A questão central é que tudo o que se torna "publico", lei, se transforma em prioridade de financiamento. Se eu que estudei filosofia e tantas outras coisas me sinto perdido, imagina quem não sabe nem ler e muito menos a diferenças entre um estatuto, polítca, plano. São nestes universos confeccionados por magistrados que o mundo da dignidade se perde e se transforma em meio privilegiado e abstrato.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um instante só!

Feriado de semana. Que dia é hoje? Parece que alguém morreu enforcado. Mais uma pessoa herói publicado no cérebro morto de nossas escolas. Parei de trabalhar, loquei um filme, comi um frango inteiro e já escureceu. Olho o amanhã na certeza de mais um caminhar e fazer algumas coisas. Não imagino-me morto. O que será isto, ou melhor, não falo meramente da morte, mas deste instante de vida. Sentido? Dúvida? Desespero? Busca? Não, apenas uma idéia que me trouxe um pouco de percepção sobre o que faço, farei e deixarei de fazer. A inexistência é lógica correta, transcender a isto, é uma pequena forma de potencilizarmos a nossa loucura egocêntrica. O nada corrói os livros e genomifica os vivos. Um instante só!

Eco-logia profunda

Hoje o sol bateu na parede e alertou o corpo de que a mata é mais importante que a sombra.

domingo, 4 de abril de 2010

Ponte Aérea




Não suporto ouvir o castelhano dos Andes,
não pelo idioma em si, mas pelas bocas que o pronunciam
O que me afeta é o olhar de índio depositado nestes seres,
carregam paletós e meias de americanos
Uma sujeira cultural, lixo antropológico
Esta mistura é material não reciclado

Amo o Brasil pela sua nudez e colorido
Quero o português no boteco e o inglês só nos enlatados que não escolho

Estou sentado no aeroporto de Bogotá,
Pessoas passam em passos presos a um destino almodovariano.
Policiais são reféns do espírito crasso,
talvez pela falta de um controle democrático,
Aqui cheira um descontrole ético,
Farsa e fraca força política

Vejo ao longe o início das cordilheiras,
O ar pesa e lá fora políticos são políticos,
Gente é gente, feitas sempre de procura
Isto é que me intriga,
somos os mesmos em chuvas iguais

Quando ouvirei uma só língua,
Sentirei na pele o sabor de uma só nação,
diferente apenas pela hospitalidade?
Não quero supremacia ignorante,
mas a beleza gigantesca de um povo livre
Quero sentir-me em casa e não num quartel ou na casa do bandido
Quero gota expressiva de um mesmo que não é mesmo
Saber decifrar o código da depressão
Convocar não no sermão,
mas na experiência convicta de uma libertação sem bandeiras e nomes
Apenas um libertar,
como enxurrada em dias de tempestade

Assim iniciou a revolução hitleriana,
Um afogamento natural de uma intolerância
Estou aqui de saco cheio, e com olhos doendo
Mierda! Porque perdi o vôo de conexão?
O que era uma ponte, afogou-me neste lugar,
sem gosto e muito peso

A América latina de meus mortos revolucionários
tão europeus e americanos,
quanto a arma que punharam em suas convicções
Salve o tupi, e as mulatas
Liquidificadas pela inculturação sadia,
De um povo resumo, síntese do que se almeja humanidade
Sociedade, palavra frouxa e esbirutada no hospício do poder.

domingo, 28 de março de 2010

Sentido Obrigatório!


Iniciou neste domingo a chamada "semana santa". Calma, não falarei de um acontecimento católico, ou algo do gênero da religiosidade habitual. Pergunto de início: donde provém o conceito de "santa"? "Santa" significa, saudável, ou seja, equilíbrio entre a confecção do possível e do tecido histórico velado que sempre nos escapa, até mesmo de nossas técnicas literárias, investigativas, artísticas e/ou plásticas. Sabemos que a vida é um meandro de terapias e loucuras. Somos loucos e encantados por sentido que buscamos nos outros. Uma navalha de conflitos internos e externos, típicos da razão que matematiza o coração. Eu, isoladamente em minha crença, escolhi a fatalidade das resoluções engendradas no meu peito e nos meus pés, que se tornam herança a cada passo dado e olhar depositado. Não me justifico em outras possibilidades, fora de mim, como um chapéu de carnaval, mas sim, justifico-me naquilo que me atravessa e posso misteriosamente apalpar. A Semana Santa é a soma de fatos aprofundados em uma linha histórica traçada por um homem, nada mágico e nem tão extraordinário, simples por demais, que foi até ridicularizado, fado típico dos anônimos, daqueles que não são artistas da massa e nem empresários de grandes bens. Enfim, primeiramente este homem foi aclamado como "necessário", "percebido", "vangloriado" com os ramos dos elogios e admirações. Num curto estender dos fatos foi desconfiado, mal falado e condenado; prostou-se não de medo, mas pelos escarros e palmatórias da moral local, codificada de forma medíocre pelo poder de mando. Jesus foi à imoralidade de uma proposta, a infidelidade da crença, (não de bandeiras e passeatas, mas de carne e encarnações) militante pela igualdade, tão massacrada pela falta de tantas coisas para muita gente. Este é o homem-símbolo, que mesmo morto fisicamente, justificou a sua vida na boca da memória. Abstenho-me da possibilidade da imaginação de uma fé cega e de tratados bem pensados, asseguro-me para este fenômeno apenas num fato: morto foi memorizado, explicado pelos que o seguiram em vida. A morte é a soma de lembranças daquilo que não perece: gestos, atitudes, falas de denúncias, perigos por uma causa, que se geometrifica sempre no outro. Eis o palco de uma semana diferenciada pela doideira cotidiana de dias e semanas, trafegadas de deveres e cumprimentos exigidos pela sobrevivência. Momento de deitar a mente e o corpo no pensamento daquilo que somos e profundamente somos interpelados a sermos. Mas existirá uma forma de conceber a vida de forma autêntica? Existirá uma essência para isto que chamamos VIDA? Estas questões será uma interrogação romântica ou meramente mais uma especulação filosófica, geradora de conceitos e palavras, como fábrica de isopor? Por vezes, na nossa diversificada rotina temos que encarnar a partir de rituais alguns fatos e comemorações, e desnudar assim, os sentidos destes meios e tempos que foram "criados" e "manuseados" sabiamente num belo dia de intenção. Assim, a intenção desta semana foi simples, apontar para a entrega daquilo que deixamos de ser. Hoje moralismos, templos, imagens de Deus (es) alienando a imagem natural da vida; exclusões, predileções, guetos, a-politicidade, partidarismos, prostituição, não do corpo, mas de julgamentos, se tornaram em ar no pulmão das relações. Neste cenário nasceu a história deste homem chamado de Jesus, uma resposta de contradição e subversão, transgressão para a ordem estéril, opressora do fenômeno vida. Vivemos num mundo de tantas ordens e decretos, em que a posse é direito, e não um crime, o poder é caminho e antídoto, e não abismo e doença. São estas situações que singularizam e reverenciam esta semana em momento de pensar em nós mesmos enquanto seres breves, marcados por uma vida de consumo de tempos e de cargas factuais que nos lançam para a vida ou a morte. Mas algo para lém disso?  Uma dica: para acontecer a ressurreição é necessária a dor da calúnia, do desprezo, da pobreza pelo desprezo, da não diplomacia diplomada, da inutilidade do servir, da idiotice da gentileza, da febre da generosidade. Jesus não é uma questão de fé, nem objeto de proselitismos, mas acontecimento de vida em meio há tantas mortes minúsculas, microscópicas, eterificadas e inconscientes no movimento habitual do que somos agora.


sábado, 27 de março de 2010

flactus vocis

Se as palavras fossem úteis e movedoras de qualquer ação (intencional redundância) a ONU não estaria falida publicamente e os padres não estariam esquizofrenicamente roucos. Palavra pela palavra é doença. Alguém já tentou falar dialogicamente com um adolescente desta época ou com um idoso envelhecido? Blábláblá. "Douta Ignorância", como dizia Nicolau de Cusa...ou poderíamos dizer categoricamente e literalmente, ou seja, no sentido prático da palavra: vento de som!

PERCEPÇÃO CONCRETA

Ontem andava de ônibus, apertado feito sardinha na loja da esquina de uma periferia vertendo de gente e de sóis enormes. Enfim, inferno metrificado. Olhava para as ruas e construções peguntando-me: "Onde está o direito da terra e de suas biodiversidades?" Eu via concreto, ferro, cerâmicas, plásticos e fio, ou seja, coisas entulhadas uma sob as outras, como tapete de ferro velho num campo de trevos. Não existe razão para a insanidade bárbarie e psicótica que confeccionamos diante de nossas próprias penas. Almas penadas! Somos assombrados por delírios e medos, ergo-me na frente de mim mesmo, feito defunto realizando sua autópsia. Estarei vivo para isto, ou serei um lapso entre imaginação e toque de aleijado? Não sei a origem e o princípio com que nos perdemos numa lógica sem barranco e nem porto. Quero dizer a mim mesmo e ao meu filho: "Vamos embora! Saiámos e procuremos um lugar para plantar, colher e passar a noite ao relento, ao som de uma lua melancólica. Falaremos de nossas infâncias e dos nossos amores de porões. Dormiremos tortos e com os pés gelados numa rede pequena em gigantescas varandas.  Quero falar para o meus netos dos medos reservados no ato da vida, das insônias e dos calafrios frente aos velórios. Não quero ter jardim, quero ter uma florestra, quero ter um riacho e não um quintal. Queria ver minha roupa surrada, sem cor, apenas com um sentido de existir - protejer - como roupa de Francisco de Assis. Não saberia relatar feito diagnóstico o que aconteceu com os meus vizinhos, com minha vida, com a vida dos meus. Serei um ser a mais neste metrô de metro, nesta rua nua, nesta gente entificadas em coisas sem coração e mente. O ônibus chegou no ponto, lugar de chegada, minha viagem permanece algemada com os meus deveres. Sai correndo (ATRASADO) para assentar-me numa reunião. Trabalho mais um dia. Sobrou-me esta folga entre um sono e o barulho da rua, que é palco de adolescentes e jovens ao som de um Rap, verdades de cores e sons, nada mais e nem menos. Enquanto isto a atelevisão na sala esquenta e na cama a amada dorme, cansada pela canseira embutida pela carnificida de mais um dia nesta cidade. 

segunda-feira, 15 de março de 2010

Revolução microscopicamente gigantesca!


Que revolução esperamos?
Usaremos armas ou alguma estratégia bélica?
Faremos um ritual de protestos, com passeatas e motins em prédios públicos e privados, que armazenam a razão da sobrevivência de milhares de seres humanos estraçalhados, em sulgo e extrato, engarrafados num afazer insconsciente, muito mais para um ter do que para um ser? O ser é resultado de desejos, anseios, visões do que imagina de si mesmo e seu entorno. Quando um ser sujeita-se a mero objeto do fazer, perde a existência. Morre de modo vivo ou vive morto. Lá fora longe desta tomada virtual, passa o metrô caro e gente suada em montoados. O asfalto estrupa a terra infértil e podre de canos. O que dizer? O que propor? A revolução se deu sempre em idéias e mortes, além dos expontâneos suspiros de frustações com cicatrizes de outra ditadura, não esperada mas revelada. Não acreditem nesta melancolia histórica e tão contemporânea. Temos que crer na goela de outras sálivas? Não! Prefiro ser vomitado, expelido, jogado fora, desinfiltrado. No vaso da minha área uma planta subtrai a terra numa combinação simples do limite potencializador: terra - vaso - planta - água; para que assim: cresça, floresça, morra e volte a ser vida (se é que deixou de ser um dia) em forma de adubo. O sentido de uma flor está na possibilidade de exaurir-se plenamente em cheiro e cor.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010


Desde quando somos consumidores do acúmulo?

Cidadela

Se eu pudesse mosaicaria uma cidade para mim. Roubaria pedaços de Olinda, que seria a base de toda a cena que quero, suas ladeiras, em planícies, músicas vomitadas dos becos e o lado do mar verde escaldante, que desfila magicamente atrás da igreja de São Bento. Prenderia o clima ameno e oportuno de Itaipava e buscaria a simpatia dos lojistas/barraqueiros da feirinha da madrugada. A comida poderia ser a do bairro onde nasci, cheiro de simplicidade e ponderado tempero e bem catarina. Queria também os espetáculos de Curitiba e os artesãos de Tatuí. Os idosos nesta terra seriam Suassuna, Luis Gonzaga, Fernando Pessoa, Paulo Autran e Cora Coralina a coordenadora deste movimento de sabedoria e educação. No único sindicato eu chamaria Eduardo Suplicy como o grande porta voz e demandador. Como vigário, sem igreja, Leonardo Boff que todo dia visitaria uma mesa, até se embebedar de cumplicidades e degustações. Na prefeitura nada mais que Lula, não existiria vereadores e secretários e nem portas na prefeitura. As reuniões aconteceriam às claras na praça da cidade no fim de tarde dos sábados, depois do trabalho e do futebol. Nos coretos e bancos chico buarque contracenando em rodas com os Demônios da Garoa. Nas casas redes postas e mesas na calçada, na parte plana uma lavoura cuidada por homens e mulheres que querem emagrecer e/ou tem prazer em arar, um ofício de cuidado e de contemplação.

Lógica interna


A força de uma gente não está no que ela pode conquistar, mas no que ela consegue mobilizar enquanto história e prazer. Os grandes homens são aqueles que nos apontam sabores entrelaçados com as mais ingênuas e putrefatas vontades. Chamai o surdo da esquina para a roda dos corações de samba, embalai os meninos sem berço para o afago da mulher viúva. Construí leitos de amores e de estrupos esperados. Queremos fé na ladeira no dia do carnaval e não choro de defunto que não se amava.

Quero vida onde há desmaio do sedutivo e amante desespero, quero feto na morte do cachorro da madame. Borboleta esvoaçante no cérebro do prefeito bandido e jogado as traças de sua enigmática consciência. Quem foi que disse que precisamos ser éticos? O mundo é feito de corrupção, mas quero uma corda para enforcar esta mentira, que me devora feito rato de deserto numa noite úmida de fome e de peste. Até quando terei dedo para enganar minha mente e massagear meu ego de sentimentos possíveis e degustáveis. No silêncio destas teclas e fora da janela, que agora me esquenta, há um rastro de mistério e verdade, que ouso fugir de meu cansado e vagabundo estandarte do pensamento. Quero a feia escondida atrás de um medo e rejeição, a bela colocarei na estante para no entardecer admirar o que não foi e será. Nas mãos de nossas vidas temos duas verdades: o despero e a fuga, ou o que muitos cientistas ilusionistas diziam, realidade e alienação. Quero a chuva no meu corpo nu, abrir os pés para o chão em noite de sereno, doar o que tenho, vender-me aos que precisam, e mastigar o que me foi negado. O cântico do pássaro é mais fino que gravata de maestro no municipal dourado, por um brilho que dá náusea. Quero arroto de bêbado soletrando letras e solfejos tão internos que causa estranhamento. Quem beijou o andarilho em meio ao sol de verão numa rodovia entre tantas? Eu me vou perdido em músicas de auto-falantes saltitando silabas e lógicas. Sei que um dia terei matéria colhida dos vagões dos metrôs e das camas de mulheres tão vendidas quanto a bala da banca suja do japonês, que também vende yakissoba de madrugada na boca suada e morna do metrô. Salve aquilo que o povo se engasga e morre. Quanta coisa entra nos olhos, garganta, estômago? Somos hoje enxurrados e asfixiados de poderes de outros que melindrando entre a arte da política e do patologismo inexplicável do ter, nos tiram a única liberdade: viver. iver, sinonimos de espontanea crueza de respirar, cagar e dormir. Faço o que quero e preciso. 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Política:coisa pequena


Política. Palavra inútil, mas que esmaga a vida da gente feito verme no pneu de caminhão. Será que é preciso estudar pra enxergar o que se pinta no cenário das subprefeituras, prefeituras, governo estadual e federal e o escambal? As coisas mais óbvias são as que nos matam, pois o que é evidente passa pela gente feito bactéria, ou vírus no sangue. Se soubessem como agarrar ou fechar a morte, teríamos nas mãos a receita da perenidade. Será que falta olhos ou sanidade? A sociedade vive de uma epidemia do retardamento. Retardamos nossas possibilidades nas vias e tráfegos. Porque buscamos os mesmos lugares e moramos nos mesmos lotes? Doença, misteriosa doença. Quem não sabe que corrupção não é causa de CPI, mas de processo policial? Enquanto um rouba o patrimônio de todos, o outro rouba o tempo de seu público salário, discutindo erros ou crimes alheios, como palco de um show. Política se transformou em mágica e em campo de atuação. Artistas de egos que almejam atingir o poder até em-podrecer-se de dinheiro. Política não é investigação de casos, mas é imaginário do que é coletivo, do bem dos outros. Quem não sabe que tem mais político e assessores do que projetos aprovados, iniciados e, o mais importante, terminados?! E outra questão, quando que as pessoas enlatadas nos metrôs perceberão o crime da ausência e inadimplência de idéias e construções mais humanas, sem correr o perigo do esmagamento e do brutal sufocamento? Não tenho dever de lambuzar-me com o suor do outro, ou o bafo de cigarro de fulano, num quadrado de transporte que é mais cobrado, de modo supervalorizado, do que diretamente é investido, ou seja, dou uma ferrari para o dono destas coisas que chamamos de empresa, para receber o rabisco de um carro feito por uma criança. Não estamos avaliando aqui a dimensão artística e simbólica deste mero exemplo analógico, mas sim, falamos da dignididade e jsutiça da troca, preimissa esta tão necessária na cultura societária. quando falamos de direito a espaço, e ao conforto num espaço como metrô e outros "lugares" putritamente público, isto não é desprezo pelo(s) outro(s), é sentimento de dignidade, todo o ser humano tem a essência do escolher, pois tudo o que é definido ou forçado é crime, por isso, o estrupo é violação inaceitável. O capitalismo é uma penetração de fatos e sistemas que mergulham num consciente de bando. Quero ter conforto, espaço, ar livre. Numa cidade nem sempre há lugar para gente. Toda a matemática urbana consiste em andar, nunca parar Os que param são os trapilhos e bêbados. Os bancos das praças foram feitos para amarrar tênis e as pontes instrumentos para se chegar ao emprego. Tenho vivido nada e pagado muito, eis a equação do que alguns chamam de capitalismo. Socialismo é tensão de gente barbuda e com a bunda suada. Queria tanto um poente sem camiseta e sem idéia que fere feito faca. Política é o que é? É a mágica de esconder as certezas mínimas daquilo que éramos, somos e seríamos.





quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ah! se soubessem.

Quando saberão que não faço poesia, mas nervos
Que não faço sabão, mas o prato principal!

Busquei




Busquei, revirei móveis para saciar-me de um sentido escondido
No céu fumaça ou neblina, nada dizem os astros e os jardins
Busquei algo, mas o barulho dos carros me congestionaram
Saí de mim, fiquei aqui e perdi-me lá mesmo
Sobrou-me livros soltos nos quatros cantos
A noite está quente e afaguei uma lágrima
Lembrei-me do mar, tão longe
Ali passa mais um avião
A tv chora um cantor
No chão os pés
Olhos vi
Suei
Ufa
Ai
a

Passou


Hoje um vento trouxe um leve contorno de pêlos dourados que mergulhavam numa pele refrescada por um maciço suor. Ombro como ponta de uma obra esculpida delicadamente por um gênio expressionista. Imagem única. Fechada num canto da mente e arrebentada nos poros do pé e da nuca. Passou com energia de férias, arrastando olhos e sentidos, saliva de delírio, com salto raso de chinelo e pomba traseira arredondada. Vestido, tecido em segredo e em marginalidade. A sensualidade reside nas beiradas longínquas da existência das gravatas e dos holofotes. O que é singular mora no cenário que não é visto e do enredo não narrado. Uma marca tatuada no tornozelo deslizando como história em quadrinhos de uma vida em bênçãos. Salve a vida, frente ao espetáculo dos lábios desta menina, donzela, coisa e atriz de algum lugar distante, mesmo que more no prédio à frente. A beleza é elemento de agarramento, corpo de penetração, cheiro de tesão, tensão de saudade. A dor do artista é capturar e lembrar o passo que se atravessou dentro de si, como cólica existencial. Nunca respirei um gigante arrepio dentro de mim, que me lançasse às palavras e pincéis devorando imagens e cores ofuscando vorazmente a ausência e o fim-limite. Queria aprisionar aquela imagem, ou bebê-la e depois uriná-la até esvaziá-la de mim, mas a beleza é o vapor e não a lenha, é a subida e não a escada, é o calafrio e não a pele, é o desejo e não o gozo.

Molecagem divina?


Max Ernst – La Vierge corrigeant l’enfant Jésus sous le regard de trois témoins : André Breton, Paul Eluard et le peintre (A virgem espanca o menino Jesus vigiada por 3 testemunhas: André Breton, Paul Eluard e o próprio artista) (1926).

Bela imagem! Quando eu era adolescente um amigo-mestre me falou, claro que parodiarei a minha memória: "É importante tirar do pedestal as imagens que construímos dos outros. Sempre esperamos dos outros atitudes extraordinárias. Transformam-se em mitos - longe do que são e deveriam ser no coletivo rotineiro. Esta atitude pedagógica torna-nos pessoas coladas e impregnadas com as possibilidades e causas reais dos fatos e fenõmenos da existência. Com isto, nos emponderamos do conceito-prático de transformação".

Nada é o que imaginamos, tudo se faz na simplicidade e na lógica óbvia de um absurdo, que instimos em desprezá-lo e deletá-lo de nosso chão da razão. Jesus é divino pela sua humanidade e não o contrário! O resto é masturbação de conciência alienada.

Imagem perfeita - confundo-me com a visão deste pintor.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

III Clube da Luta: proletariado milionário


Uma geração inteira que trabalha “em empregos que odeia para comprar coisas que não precisa”(clube da luta - só pra não perder o costume), decepcionada com suas próprias jornadas e acomodada a tal ponto de nada mais sentirem. São pessoas que sobrevivem ao invés de viver e que há muito já aceitaram que não alcançarão seus sonhos de infância e não verão realizadas as promessas que um dia lhe foram feitas. Como conseqüência, vivem uma vida anestesiada, onde cada novo dia é um verdadeiro sacrifício. Uma geração que encontra dificuldades em sentir-se viva.

II Clube da Luta: nas nossas procuras, nos perdemos!



“As coisas que você possui acabam possuindo você”.
(...)

“Só depois de perder tudo é que você será livre para fazer o que quiser”.

I Clube da luta: geração sem punhos




"Somos uma geração sem uma Grande Guerra. Uma geração sem uma Grande Depressão. Nossa guerra é espiritual. E nossa depressão são nossas vidas".

frase intepretada por Brad Pitt em Clube da Luta, de David Fincher.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Vácuo...




A procura do vácuo.

Há palavras, compromissos e deveres. No abismo entre estas possibilidades, que se tornou em ordem necessária para a sobrevivência, arquiteta-se o necessário mundo do não - fazer, do contemplar e do pensar. Nele nos refazemos e compreendemos a morte como certeza de nossa máxima possibilidade.

Tenho inveja dos bichos mais insignificantes que procuram um mato sem importância, vivem nele como universo paralelo, ao mesmo tempo central, pois profundo. Respiram o mistério simples e autêntico e desvendam a sabedoria.

Quero tempo para ler, criticar e esvaziar-me das palavras, dos afazeres bestiais, dormir nas horas e brincar com a terra e os galhos. Quero inventar certezas e esquecer os dogmas. Quero não precisar acreditar em autores, patrões e políticas. Quero viver sem dinheiro, mas com um pé de limoeiro e banana. Quero ser índio sem documentário, mulher sem marido, homem sem moda.

Onde reside esta possibilidade? Na indigência ou na loucura? Chutar o balde e o pau da barraca é uma coisa, agora vomitar este mundo?! Morrerei, enfartarei, ou serei excluído? A exclusão é um mal de isolamento de oportunidades, que pode causar a morte.

Quem sabe o primeiro passo para o método para esta sanidade seja fugir... não sei procuro uma saída, que não tem portas e nem tramelas, apenas um caminho a ser percorrido, sem placa e nem destino apenas a coragem de caminhar, seja com sandália ou de pés no chão.

A cada amanhecer sinto meus poros nevrálgicos hipnotizados por esta convocação.

História inexistente


Nunca na história existiu uma revolução de filósofos ou teólogos, ou poetas. Tudo que se moveu de forma catastrófica e ou construtiva, por mais que seja impossível separar estes dois elementos, ambos estão implícitos no outro. Como diz Saramago: “O Caos é a ordem a ser descoberta!”
A Igreja se meteu na história não pelas palavras de Agostinho ou Tomás de Aquino, mas foi pelas engenharias de guerra e da inquisição de homens banhados pelas técnicas. A Igreja Católica foi levantada pelo conhecimento das artes e não pela experiência eterizada de “Deus”. Os argumentos sobre deus não moveram um estado, uma nação e uma comunidade.
A técnica prevalece ao raciocínio frenético de muitas pessoas. Hoje, parado diante do espelho da cama, perguntei-me: O que sei? Como posso mover este mundo de civilidades, para um rumo que imagino? Posso manobrar pessoas, estruturas, mas eu mesmo poderei mover algo sozinho? Fui criado em livros de fenomelogistas, de tratados de céticos, e de hinos de crentes. O que isto me torna mais imprenscidível para a história de desenvolvimento?

Não falo aqui de tecnologias, falo do progresso do espírito, que se equaciona no coletivo. Descobri que das mãos de um filosofo não existe arma e nem arado, apenas uma caneta indefesa, sem o ato de tocar a realidade. De palavras temos várias, sem eco, sem cor, sem cheiro, sem motivo, sem ponta e nem nervo. Quero a técnica que move a revolução, por mais que ela seja inútil, como todas as outras. Sair das reuniões e misturar-me ao mar de complexidades de uma realidade qualquer, da rua às mansões. E assim, quem sabe criar uma técnica para além das tecnologias políticas, morais, jurídicas, engenharias... Etc. quero a certeza de uma técnica que me traga a esperança de existir e da história. Quero ser trabalhador da história e de uma vida, que geme de mudança, não delas, mas daqueles que são vivos por idéias, assim chamados racionais: ser humano.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Morte e Vida Natalina



Mais um momento chega até os nossos olhos e agendas. Momento de viajar e gastar o corpo em ônibus, carros, enfim, em estradas e rumos. O mais interessante, nesta experiência de vai e vem, é que concluímos que o nosso verdadeiro e histórico lugar de apoio, origem e memória nunca é onde estamos (isto se evidencia na maioria das pessoas).

Estamos sempre fora de nosso início, daquilo que esperamos “visitar”, ou melhor, revisitar. Visitar a família ou a nossa casa de origem é uma maneira que encontramos, pedagogicamente, de nos tatearmos e nos acariciarmos. Já peguei tantos metrôs, aviões, destinos diversos, mas nenhum tem a lógica desta “viagem” de final de ano, um fenômeno que invade internamente feito enchente.

“Natal”, já falei tanto disso em artigos, palestras, textos e poesias, sempre tentando desvencilhar hábitos coletivizados, com uma pitada de criticidade frente ao valor singular desta época, porém, hoje aqui, diante destas palavras, calo como mãe diante de um leito do filho enfermo por uma doença misteriosa. Não sei o que dizer, não sei o que imaginar, apenas embalo-me no acontecimento, com um sentimento de cansaço. Tantas coisas fizemos, lutamos, brigamos, conseguimos, frustramo-nos, acreditamos, amamos e deletamos de nossas listas de prioridade neste período de 360 dias. O cenário da vida se equaciona num calendário? Não sei, pois estamos sempre muito ocupados para nisso pensar.

Sempre tive a imagem do natal como um grande enterro. Enterro de nossas vaidades – aquilo que tentamos sobrepor ao outro. Enterro de agendas e cronogramas, para que dali eu possa presenciar o broto autêntico da vida, sem jóias e relógios, apenas nua, medida sem vergonha, descaso de mentiras e domesticações. Enterro do que não vi, não degustei, não tateei e não cheirei. O natal para mim é ressurreição do eu mais primário, mas existente, escondido, fragilizado, anêmico, marginalizado, excluído, banido, subnutrido, esquecido.

Hoje galga em mim uma vontade de dormir na estrada, a caminho de algo que não encontrei e nem encontrarei. Quero fugir das luzes e buscar a escuridão da noite de natal. Talvez lá eu possa me encontrar, perdido num ventre de rotina que hoje se resume num plano universo (um só verso), por isso, bebida e comida, um estado de sobrevivência fatal e corriqueira.

Talvez o que chamam de "noite iluminada", seja no fundo o brilho que buscamos no silêncio contemplativo da escuridão, que é sinônimo de não-aparência, não-horizonte, apenas percepção de respeito e espreiteza. Neste sentimento iluminamos a nós mesmos, nossos eixos e centros, tão debirutados pelas gigantescas demandas e estratégias sociais, profissionais, políticas, culturais e comportamentais em que nos deixamos reger diariamente.

A ética de nosso coração está no estômago de nossa faina histórica.

Neste ano vi tanta gente falar, planejar e contar carros, apartamentos, e-mails, maridos. Outros vi enlouquecer, dormir, enfartar, casar, fugir e romper com patrões e família. Natal é motivo de memória, é o parto do novo!

Esta memória faz-me voltar para a minha imagem. Confesso que envelheci, tenho fios brancos em minha barba, barba esta de tantos comentários e deslogios (falta de cuidado, assim dizem!), meu corpo a mangedoura das minhas angústias, medos, esperanças e projetos. Hoje me identifico com Jesus no horto e não aquela imagem do presépio: vivo, como folha verde na primavera. Talvez esta confusão de imagens e cenários, entrando num complexo quase que ilegível, seja o resultado da tão falada experiência religiosa -  confundir imagens, rostos, anos e etapas. Hoje não sei se sou Filho envelhecido ou tornei-me Pai, terceira pessoa da trindade. Mas com inspiração nas cicatrrizes que carrego, descrevo balbuciando ao vento: quero ser Espírito para voar deste chão, quero vitalidade para percorrer desertos e jejuns, ou então, quero ser menino aquecido pelo bafo simples e real de um burro. Sem medo de bactérias, de compromissos, de nojeiras, de absurdos, de idiotice, maluquice. Quero ser/estar entre o sono do sonho e o sonho do sono, aqueles de minha infância que eram levemente encerrados ao som profético e familiar de um passarinho a mergulhar no orvalho da manhã. Na cozinha nasce o cheiro do café e o som dos passos de minha vó, preparando o caixote de lenhas, frescas para o sacrifico do almoço. Doce abandono, curta viagem, enorme distância, parida memória.